Museus resgatam memória histórica e religiosa de Tiradentes

Pelo centro e arredores da cidade de Minas Gerais espalham-se preciosos capítulos da história do Brasil. Muitos destes tesouros podem ser conhecidos pelos visitantes.

 

Por Fabíola Musarra

 

Matrizde Santo Antônio - iStock.jpg

 

Com pouco mais de sete mil habitantes, Tiradentes, em Minas Gerais, está comemorando seu terceiro século de existência. Pequenina e repleta de encantos, é uma das cidades brasileiras que mantém praticamente intacto todo o seu valioso patrimônio histórico. São igrejas, casarões (muitos transformados em museus), calçadas estreitas e diversas outras construções erguidas a partir do início do século 18, quando o Brasil ainda era uma colônia de Portugal.

Nem é preciso andar muito pela cidade para desvendar essas preciosidades. O centro histórico de Tiradentes, por exemplo, guarda diversas delas: ruas inteiras calçadas com solteironas, pedras assim chamadas pelo fato de não se interligarem umas às outras, além de casas e solares coloniais com telhados que denunciavam a classe social e as posses financeiras de seus moradores: nas com telhados adornados por eira viviam famílias de bens.

 

Tiradentes - Foto por Istock - Gilberto Mesquita.jpg

 

Nas com eira e beira moravam os ricos, enquanto as com eira, beira e trigueira pertenciam aos milionários. As demais não ostentavam nenhum desses elementos. Nelas moravam os pobres, a maioria da população. Já os solares eram erguidos com a finalidade de servirem apenas de lar, enquanto sobrados abrigavam a casa onde a família vivia no andar superior. E, no piso inferior, funcionava a oficina de trabalho ou o comércio de propriedade dela.

Classes sociais e posições financeiras à parte, o fato é que Tiradentes vive, respira e transborda história. Algumas de suas obras arquitetônicas dos séculos 18 e 19 merecem ser conhecidas, quer pela sua beleza, quer pela importância histórica. Casos da Câmara Municipal (Rua da Câmara) e da Prefeitura Municipal (Largo das Forras), que funcionam em casarões do início do século 18.

 

Tiradentes - Foto iIStock - Willbrasil21.jpg

 

Também merecem a visita a Ponte das Forras e o Chafariz de São José. Construído em 1749, este último fornecia água potável para a população e era o lugar onde os escravos eram vendidos. Destaque ainda para a antiga cadeia pública, para o solar onde viveu o inconfidente padre Toledo e para o Museu da Liturgia. A primeira hoje abriga o Museu de Sant’Ana, enquanto a segunda foi transformada no Museu Casa Padre Toledo. Já a sede do terceiro foi construída na primeira rua de Tiradentes.

Para quem gosta de aprender sobre as raízes brasileiras, curte cultura ou simplesmente é religioso, as três últimas construções são indispensáveis. O Museu de Sant’Ana, por exemplo, está instalado em um casarão histórico, na esquina das ruas Direita e da Cadeia, em frente ao largo do Rosário. Seu acervo pertencia à empresária Angela Gutierrez, que doou todas as peças de sua coleção para a montagem desse espaço dedicado à mãe de Maria.

 

Museu de Santana - Kelvin Mckolen Martins

 

São quase 300 imagens que representam a santa protetora dos lares, da família e dos mineradores. Elas forem sendo recolhidas pela empresária em suas andanças pelo Brasil ao longo de quatro décadas. As obras, eruditas e populares, foram produzidas em diferentes estilos, materiais e técnicas. A maior parte delas é assinada por artistas anônimos que viveram entre os séculos 17 e 20.

Além de imagens (muitas delas retratam Maria ao lado ou sentada no colo de Sant’Ana), a história do casarão, que data da primeira metade do século 18, também faz parte do museu. Ali funcionava a antiga cadeia pública, construída de maneira pouco usual para a época do Brasil Colônia, por ser separada da Casa da Câmara.

Ao entrar no casarão, é possível ver as grades originais nas janelas e também o calabouço, onde eram mantidos os prisioneiros. Apesar de suas grossas paredes e grades coloniais, o espaço, amplo e decorado em estilo contemporâneo, é equipado com elevador (as suas duas entradas são desniveladas em relação às ruas) e recursos tecnológicos – basta dar um clique nos painéis dispostos ao lado das obras, para saber a origem, autoria e obter informações delas.

O museu foi idealizado pelo Instituto Cultural Flávio Gutierrez, criado e presidido por Angela Gutierrez desde 1998. Foi inaugurado em 2014 e doado posteriormente ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Hoje, também é palco de exposições e palestras. Em seu interior funciona uma lojinha de objetos sacros.

O padre inconfidente – Por sua vez, o Museu Casa Padre Toledo é um solar setecentista que pertenceu ao inconfidente padre Carlos Correia de Toledo e Mello. Nascido em 1730 em Taubaté, então Capitania de São Paulo, o religioso, depois de concluir os estudos em Portugal (Europa), veio para o Brasil, onde foi vigário da matriz de Santo Antônio, em Tiradentes, à época conhecida como Vila de São João Del Rey.

 

Museu Padre de Toledo

 

Homem culto e liberal, o padre vivia com o requinte que a riqueza de Minas Gerais possibilitava a pessoas de seu status. De gosto sofisticado, tinha também muitos móveis pintados, como estantes, catre com cabeceira dourada… Os sobrecéus das camas, o encosto das cadeiras e os canapés e almofadas de portas ainda agora exibem detalhes em damasco carmesim, um corante vermelho-azulado produzido por um inseto.

O padre Toledo tinha dois escravos, a quem tratava com respeito, segundo contam durante a visita guiada ao museu. Mas um olhar mais atento ao quintal da casa revela que a mesma sorte não foi compartilhada pelos negros que ali moraram após o exílio do inconfidente. Ali ficam antigas senzalas. Escuras, com pouca ventilação e com ainda menos espaço, denunciam as insalubres condições que os escravos e as suas famílias viviam nos tempos em que o solar foi habitado por outros proprietários.

O padre tinha 59 anos quando foi preso, em 1789. Foi acusado pelo Acórdão da Alçada de convidar o seu irmão, Luís Vaz de Toledo Pisa, sargento-mor da Cavalaria Auxiliar, para participar do movimento para libertar o Brasil dos altos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa. Nos autos da devassa, ele confessou a sua participação na conspiração. Expatriado para Portugal, permaneceu encarcerado na Fortaleza de São Julião. Depois, foi transferido para uma prisão eclesiástica em Lisboa, onde veio a falecer.

Hoje, a casa do século 18 funciona como museu e reúne curiosidades sobre o religioso que participou ativamente da Inconfidência Mineira, resgatando também importantes capítulos da história do Brasil. A Sala do Cotidiano, por exemplo, sediou a primeira reunião dos integrantes da Inconfidência Mineira. E, ao contrário do que muita gente sabe e poucos livros ensinam, mulheres também participaram ativamente do movimento contra a Coroa Portuguesa.

Logo na entrada do museu, é possível ter acesso a uma mesa interativa com um mapa do local. Dos 15 cômodos, nove possuem forros (quase todos em gamela) pintados, algo que não era comum à época. O luxo da casa se compara às habitações de nobres em Portugal e a sua arquitetura e decoração são alguns de seus pontos fortes. Por isso, vale a pena percorrer calmamente todos os cômodos, observando cada detalhe.

As fundações do solar são de pedra e as paredes de moledo, material local fácil de talhar, enquanto a pedra-sabão (esteatita igualmente comum na região) foi utilizada nas vergas e ombreiras das janelas e soleiras das portas. Óleo-bálsamo, pereira, canela-sassafrás, tambu e canela preta foram as madeiras usadas no aparelhamento das vergas e ombreiras das portas internas. Vestígios de pintura indicam a decoração original nas paredes.

Além de seu belíssimo conjunto arquitetônico, o solar que desempenhou grande importância na vida social, política e cultural do Brasil Colônia expõe ainda uma obra atribuída ao Mestre Ataíde e uma colmeia com 18 espelhos. Seu interior também guarda uma exposição de peças da Coleção Brasiliana que integram o acervo da Universidade Federal de Minas Gerais e foram doadas por Assis Chateaubriand.

Espaço da fé – O Museu da Liturgia é uma atração imperdível para os católicos e para quem é adepto do turismo religioso. Logo em sua entrada estão dispostos pequenos “bancos”, onde é possível sentar e ouvir diferentes salmos bíblicos. No interior do “único museu dedicado ao tema na América Latina”, conforme orgulham-se os tiradentinos, estão reunidos interessantes (e valiosos) itens que compõem o rico acervo religioso do espaço.

 

Pátio do Museu da Liturgia.jpg

 

São 420 objetos de uso litúrgico e de arte sacra, entre pinturas, esculturas, imagens de santos, ex-votos, objetos em metal e madeira e vestuário, muitos guardados por décadas dentro de sacristias e abandonados ao tempo. Além das peças em exposição, datadas dos séculos 18 ao 20, o museu conta também com material audiovisual e com uma loja de suvenires religiosos.

“Nosso objetivo é preservar a memória da vida litúrgica de Tiradentes, mas também queremos ser um museu vivo, dando aos visitantes o sentimento de pertencimento”, conta Rogério de Almeida, diretor da instituição religiosa. Para isso, o espaço promove diferentes atividades envolvendo a comunidade da cidade e da região.

 

Museu da Liturgia.jpg

 

Entre as iniciativas, “Uma Noite no Museu”, direcionada às crianças, e o “Café com Prosa”. Ao redor de guloseimas doces e salgadas, esta última reúne e incentiva as pessoas a contarem sua história de vida. Os depoimentos são gravados e as suas fotografias surgem em painéis interativos do museu.

Para janeiro do ano que vem está prevista exposição itinerante “A Liturgia vai até Você”. Integrada por sete painéis litúrgicos, a mostra, durante um mês, circulará pelo interior de 17 igrejas de Tiradentes e de municípios vizinhos, onde poderá ser vista. Enquanto isso não acontece, o museu recebe os visitantes. Ele está instalado em um casarão da rua mais antiga de Tiradentes, um motivo a mais para ser conhecido.

 

SERVIÇO

Museu de Sant’Ana: Rua Direita, 93, Tiradentes, tel. (32) 3355-2798, site: www.museudesantana.org.br. Com exceção das terças-feiras, funciona todos os dias, das 10h às 19h. Ingressos: R$ 2,50 (meia) e R$ 5 (inteira). Entrada gratuita para estudantes, professores e guias de turismo.

 

Museu Casa Padre Toledo: Rua Padre Toledo, 190, Tiradentes, tel. (32) 3355-1550, site: www.ufmg.br/frmfa/museu-padre-toledo. Funciona de terça a sexta-feira, das 10h às 17h. Sábado, das 10h às 16h30. Domingo, das 9h às 15h. Ingressos: R$ 5 (meia, preço cobrado para estudantes, professores e pessoas com idade igual ou superior a 60 anos e com deficiência) e R$ 10 (inteira). A bilheteria encerra suas atividades sempre meia hora antes do fechamento do museu.

 

Museu da Liturgia: Rua Jogo de Bola, 15, Tiradentes, tel. (32) 3355-1552, site: www.museudaliturgia.com.br. Funciona de segunda a quinta-feira, inclusive feriados, das 10h às 17h (encerramento da bilheteria às 16h30). Ingressos: R$ 5 (meia) e R$ 10 (inteira). Entrada gratuita para crianças menores de cinco anos e para os moradores da cidade.

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