São Longuinho mora em Guararema

Perdeu algum objeto? Recorra ao santo. É tiro e queda!

Por Fabíola Musarra

Quando o assunto é turismo religioso, Guararema não pode ser esquecida.Embora ainda não faça parte dos roteiros comercializados pelas agências de viagens, a charmosa cidade situada no Vale do Paraíba, no interior de São Paulo, abriga um valioso tesouro: a igreja onde “mora” São Longuinho, o santo popularmente conhecido no Brasil por achar objetos perdidos.

Quem visita a igreja fica conhecendo a imagem do santo, uma das poucas – senão a única – do país. Hoje, a imagem que ocupa o altar, assim como as demais que são comercializadas nas lojas de artesanato da cidade, exibe um São Longuinho com pernas. Porém, nem sempre o visual do santo foi assim.

Até meados de 2010, as imagens de São Longuinho, um soldado romano que teria perdido as pernas em combate, eram de um santo perneta. Milagre? Certamente que não. Apenas um equívoco que a Igreja Católica tratou de esclarecer, após uma minuciosa pesquisa feita no Vaticano, na Itália. Então, vamos lá.

 Igreja de Nossa Senhora da Escada, em Guararema, onde está a imagem de São Longuinho

Igreja de Nossa Senhora da Escada, onde está a imagem de São Longuinho.

Sabe-se que a morte na crucificação é causada pelo sufocamento, um processo lento e de muita dor. Para respirar, o crucificado tem de impulsionar e manter o corpo para cima com os pés, possibilitando a inflação e a entrada de oxigênio nos pulmões.

O movimento é desgastante e causa o gradual enfraquecimento do corpo, além de uma dor insuportável nos pés e pernas. Devido à exaustão, o crucificado não consegue mais levantar o corpo, fica inconsciente devido à falta de ar e morre.

Menciono esses fatos porque na época em que estive em Guararema pela primeira vez conversei com muitos fiéis e moradores da cidade. Eles me asseguravam que o centurião romano Longuinho (Longinus), capitão da guarda do templo, tinha sido o soldado que havia cravado a lança no peito de Jesus para aliviá-lo da dor que sentia na cruz, num gesto de compaixão.

São Longuinho

O padre Valdenílson Pedro de Barros, administrador paroquial de Guararema, refuta essa versão, lembrando que o ato de cravar a lança no peito do crucificado era uma práxis comum nas crucificações. “Não se tratava de um gesto de piedade, mas sim um modo de verificar se o acusado estava morto, fazendo a lei romana se cumprir”.

Quanto ao soldado romano ter perdido as pernas em uma batalha e de ter sido cego ou apresentar graves problemas de visão (outras histórias contadas na época), o pároco observa que isso nunca ocorreu, conforme comprovam alguns textos apócrifos e os estudos realizados pela Igreja Católica.

De acordo com esses documentos, os romanos eram extremamente rigorosos na seleção de seus soldados, exigindo que fossem perfeitos e que não tivessem nenhum tipo de enfermidade. “Portanto, se Longuinho tivesse perdido as pernas em uma batalha ou se fosse cego, seria afastado do exército e jamais participaria de uma crucificação”, diz o padre.

“Sem contar que se Longuinho fosse cego ou que se tivesse mesmo graves problemas de visão, não poderia enxergar a parte do corpo de Jesus ou de qualquer outro crucificado em que a lança teria de ser fincada”, acrescenta o religioso.

Essas e outras curiosidades que envolvem a história de São Longuinho podem ser conhecidas em um pequeno folder distribuído na Igreja de Nossa Senhora da Escada, no bairro da Freguesia da Escada, a 3,5 quilômetros do centro de Guararema.

Segundo o texto, o soldado se converteu e, ao abandonar para sempre o exército e sua moradia, tornou-se um monge pregador da palavra de Jesus na Cesárea e na Capadócia, atual Turquia. Por sua fé cristã, foi preso e torturado, tendo seus dentes arrancados, sua língua cortada e suas pernas amputadas. Como não renunciou à sua crença, foi decapitado e morreu como mártir.

São Longuinho 

Devotos  levam a antiga imagem do santo em procissão pelas ruas de Guararema.

Senhora da Escada e D’Ajuda – Histórias à parte, a imagem de São Longuinho foi encontrada entre os séculos 17 e 19 (ninguém sabe a data ao certo), em uma capela do então Arraial da Escada, hoje Guararema. Considerada como a construção histórica mais antiga do Vale do Paraíba, foi edificada pelos franciscanos em louvor a Nossa Senhora da Escada.

Para converter os índios que habitavam a região e que acreditavam que se fossem enterrados ao lado de um cesto e de uma escada reencontrariam seus ancestrais e que teriam fartura na vida pós-morte, os missionários adaptaram a imagem de Nossa Senhora da Conceição para Nossa Senhora da Escada.

 

Igreja Matriz, na praça central de Guararema.

Durante a catequização, os padres também ensinavam aos índios que a santa milagrosamente havia feito surgir uma escada, tornando possível o acesso entre a barragem do Rio Paraíba do Sul, que banha a cidade, e o lugar onde se ergueu a atual Igreja Nossa Senhora da Escada.

Com arquitetura tipicamente barroca e paredes construídas em taipa de pilão, a Igreja de Nossa Senhora da Escada foi tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional em 1941. Única Igreja do Brasil que possui a imagem de São Longuinho, é uma pitoresca e imperdível atração de Guararema.

 Guararema, situada às margens sinuosas do Rio Paraíba do Sul.

Guararema, situada às margens sinuosas do Rio Paraíba do Sul.

Outro ponto alto da cidade é a Igreja Nossa Senhora D’Ajuda. Erguida em uma colina em 1682, foi núcleo religioso das fazendas próximas, servindo também de cemitério, com o enterro dos brancos em seu interior e dos escravos no terreno existente ao seu redor.

Para conhecer essa igreja é preciso escalar 81 degraus. Seu altar abriga uma imagem de Nossa Senhora D’Ajuda, em terracota, provavelmente de origem portuguesa. A igreja também é uma das construções coloniais mais antigas no Estado de São Paulo e foi tombada como monumento de interesse histórico em 1984.

As igrejas, porém, não são as únicas atrações de Guararema. Aninhada aos pés da Serra da Bocaina e a cerca de uma hora da capital paulista, a pequenina cidade tem muitos outros encantos: é “tingida” pelos variados tons das espécies intactas e nativas da Mata Atlântica e “abraçada” pelas verdes águas do Rio Paraíba do Sul.

Plantas, flores multicoloridas e árvores centenárias acompanham os 1.058 m de extensão das margens do rio em Guararema. Em seu trajeto o rio cria várias ilhas nos arredores da cidade. A Ilha Grande é a principal delas. Com moderna infraestrutura, possui uma pista de 400 m, onde é possível fazer caminhadas e Cooper.

 Construção colonial

Uma das antigas construções coloniais do centro de Guararema.

Outros cartões-postais de Guararema são o Parque da Pedra Montada e o Recanto do Américo, mais conhecido como Pau D’Alho. O primeiro foi assim batizado por possuir uma curiosa sobreposição de pedras, cada uma medindo aproximadamente 9 m de comprimento por 2,5 m de altura. Já o segundo abriga a bicentenária árvore Pau D’Alho, com mais de 30 m de altura e 12 m de diâmetro.

Perto dali está a Igreja Matriz. Ela divide o espaço com uma feira de artesanato que acontece aos sábados, domingos e feriados. Também é desta praça que um divertido trenzinho leva as crianças de todas as idades para percorrer as principais ruas do município paulista de menos de 30 mil habitantes.

 

A Pedra Montada, atração em Guararema.

A Pedra Montada, atração em Guararema.

O passeio acontece somente  nos finais de semana e feriados. Com duração média de 30 minutos, o trem passa pelo pontilhão da Central do Brasil, desativado na década de 1970, e por uma antiga ponte de ferro construída pelos ingleses e de lindíssima arquitetura.

Sedutora e cheia de encantos, assim é Guararema. Em seus recantos escondem-se muitos tesouros, os quais valem a pena desvendar.

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~ por Fabíola Musarra em Novembro 24, 2014.

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