Jogo de vida e de morte

Disputado por mais de três milênios pelas civilizações mesoamericanas, o jogo da pelota é dos esportes mais antigos do mundo. Perdê-lo significava ser sacrificado, num ritual no qual a morte perpetuava a vida.

Por Fabíola Musarra

O México é o berço de uma das mais antigas competições do mundo: o jogo da pelota, uma intrigante disputa na qual o vencido é ritualmente sacrificado. Sua origem remonta a 1.400 a.C., mas o esporte pode ter surgido bem antes. Vestimentas, pinturas, bolas e campos descobertos por arqueólogos revelam que o jogo já era disputado pelos olmecas, zapotecos, maias, astecas, toltecas e outras antigas civilizações que habitavam a Mesoamérica pré-colombiana, região do continente americano que abrangia faixas territoriais do México, Guatemala, Belize, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Costa Rica.

Disputado ao longo de mais de três mil anos pelos povos pré-hispânicos, o jogo tinha conotações religiosas e rituais. “Evidências indicam que, ao término da partida, o capitão da equipe era ritualmente sacrificado”, diz Michael Coe, professor emérito de antropologia da Universidade de Yale (EUA). Autor do livro The Maya (Ed. Thames & Hudson, em inglês), ele explica que pinturas e esculturas encontradas em antigos campos mexicanos, como no de El Tajín, em Veracruz, retratam esses sacrifícios. “Talvez o governante de uma cidade, ao ser capturado pelo de outra, fosse obrigado a disputar o jogo, no qual sua vida só seria poupada se ele vencesse o time adversário.”

A exemplo dos rituais de sacrifício, as regras e os detalhes do jogo variavam de acordo com o período histórico, o lugar e a civilização. Em linhas gerais, porém, era disputado entre duas equipes, de um a sete jogadores. Os “times” se enfrentavam em um campo em forma de I ou T, medindo aproximadamente 37 m por 9 m, com paredes laterais inclinadas. No do centro do campo havia dois marcadores redondos ou quadrados, um em frente ao outro, com um buraco central de cerca de 20 cm de diâmetro. Acredita-se que as extremidades do campo abrigavam estruturas temporárias, onde o público assistia ao jogo.

Quadra de basquete maia, Chichén, MéxicoIniciada a partida, as equipes tinham de acertar a bola de borracha maciça (às vezes, também era de lava de vulcão) de 10 cm de diâmetro dentro do círculo do marcador. Ao contrário do basquete, o uso das mãos era proibido nesse esporte. Nele, para manter a bola em movimento e arremessá-la para a “cesta”, os jogadores só podiam empregar a costa, as nádegas, os antebraços e os ombros. Como a bola era pesada e veloz, as equipes usavam uma proteção na cintura.

Quanto aos critérios que determinavam a vitória, ainda hoje são desconhecidos, pois os marcadores de pedra nas laterais do meio do campo só apareceriam depois de 800 d.C., como o resultado da influência tolteca. Segundo Coe, um dos raros relatos sobre o placar é uma descrição de um jogo realizado no campo mexicano de Chichén-Itzá feita pelo bispo de Iucatã, Diego de Landa Calderón (1524-1579), autor de Relación de las Cosas de Yucatán, obra em que cataloga a língua, religião, cultura e sistema de escrita maia. “Quando uma equipe conseguiu acertar a bola através do círculo, o jogo acabou. Mas provavelmente esse foi um evento raro.”

Honra e sacrifício

O anel de pedra no alto da cancha de Chichén Itzá, no México, era a “cesta” do jogo.

O anel de pedra no alto da cancha de Chichén Itzá, no México, era a “cesta” do jogo.

“O jogo da pelota foi considerado o rito religioso mais importante entre as comunidades indígenas, sobretudo entre astecas e maias”, afirma em um texto acadêmico a professora doutora Maria Ângela Barbato Carneiro, da PUC/SP. Ela explica que os marcadores ficavam presos ao lado da figura de um ídolo. Por isso, o campo era um local de sacrifício e de ressurreição. O jogador que acertasse a bola no marcador era premiado com o convite para frequentar a casa dos dirigentes, obtendo riqueza e prestígio. A sua equipe tinha o direito de se apossar de todos os objetos que conseguisse da plateia. Quanto ao capitão do time derrotado, era honrado com a morte.

Difícil compreender a lógica do jogo de bola mesoamericano. Afinal, quem disputa uma partida para ser sacrificado? A sociedade contemporânea considera isso inaceitável. Para a civilização pré-hispânica, porém, a morte por sacrifício era a perpetuação da vida. Em um texto publicado na revista Arqueologia Mexicana (Ed. Raíces, número 63), o autor Michel Graulich, diretor de estudos religiosos na Escola de Altos Estudos de Paris, explica a concepção de vida e de morte para a sociedade maia, na qual todos aqueles que deviam, pagavam com o auto-sacrifício ou com o próprio sangue.

“O sacrifício humano também era praticado como oferenda aos deuses, na tentativa de amenizar a fúria de fenômenos cósmicos, como secas e inundações, mantendo o equilíbrio do universo”, conta Graulich. Como para perpetuar a crença das civilizações pré-colombianas, o México ainda hoje abriga mais de 1,5 mil campos. Eles são testemunhas do importante papel que o jogo da pelota desempenhou na história da América Central.

Para saber mais:

– http://www.youtube.com/watch?v=YDUTOM66xrk

– O vídeo http://www.youtube.com/watch?v=c7jzRd_kEQw reproduz um moderno espetáculo mexicano sobre o jogo da pelota (juego da pelota), um dos esportes mais antigos do mundo.

– Ruínas de antigos campos onde se jogava o jogo da pelota no México: http://www.youtube.com/watch?v=oeBtbxOah9k

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~ por Fabíola Musarra em Outubro 30, 2011.

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