Parada obrigatória

Com uma frota de mais de 7 milhões de carros, a cidade de São Paulo está a ponto de parar. Congestionamentos, acidentes e violência ao volante são cenas comuns da cidade. Motoristas e pedestres não se respeitam e ninguém cumpre as leis, um comportamento que tem raízes na constituição cultural do Brasil, um país com origem escravista que se tornou republicano sem abandonar a aristocracia

 

Por Fabíola Musarra

Quem assiste os noticiários de tevê certamente já viu cenas dos congestionamentos da capital paulista. As imagens exibidas na telinha dão uma ideia, mas jamais a dimensão real do que é o trânsito de São Paulo, nem mesmo para quem mora em grandes centros urbanos. O paulistano perde horas de seu dia para chegar ao trabalho e outras tantas mais para voltar para casa. O transporte público da cidade não é eficiente – os ônibus “viajam” fazendo intermináveis voltas pelas ruas e o metrô, assim com o trem, não beneficia alguns bairros.

Para agravar, nos últimos anos, ficou mais fácil comprar um carro – para driblar a crise mundial, em 2008, o ex-presidente Lula, incentivou o crédito e reduziu os impostos dos automóveis, isentando os modelos populares do pagamento do IPI, numa iniciativa que se estendeu até 2010. Com isso, muita gente conseguiu se livrar do ônibus e do trem. Em contrapartida, o trânsito ficou ainda pior.

Com uma frota de mais de 7 milhões de veículos e cerca de 20 mil novos emplacamentos por mês, as ruas de São Paulo já não comportam mais tantos carros. O resultado é que todos, inclusive os ônibus, ficam parados nos congestionamentos. Descontados os veículos pesados e motos, são mais de 5 milhões só de carros. Como a população da região metropolitana é de quase 11 milhões de habitantes (não incluída aí a população dos 38 municípios da Grande São Paulo), são quase dois automóveis por paulistano, o que significa que praticamente a metade da população tem um automóvel.

Enquanto o número de veículos cresce mês a mês, as ruas e avenidas da cidade são as mesmas. Na melhor hipótese, isso resulta na falta de fluidez e lentidão do tráfego. Na pior, em congestionamentos cada vez mais longos – alguns estudos asseguram que o paulistano perde, em média, 27 dias do ano no trânsito. “Demoro de 1h40 a duas horas de carro para chegar ao trabalho. Entre ida e vinda, são de 3 a 4 horas diariamente”, diz a cabeleireira Rosemeire Souza Carneiro. Ela mora em São Miguel Paulista, na zona leste da capital, e trabalha num salão na Avenida Paulista, no Jardim Paulista.

O número de horas do dia perdidas no trânsito não muda muito quando Rose, como é conhecida a profissional, decide utilizar os transportes públicos. Para chegar às 9 horas no trabalho, tem de sair no máximo às 7h15 de casa e tomar um ônibus até a estação do metrô de Arthur Alvim. Depois, trocar de linhas, fazendo três baldeações até o seu destino, a Estação Trianon do metrô. Ao todo, são 3 horas por dia. “Ninguém merece o trânsito de São Paulo”, brinca Rose, consciente de que esse é um problema insolúvel.

“A relação do paulistano e o trânsito é como uma dor crônica, daquelas que incomodam e nunca vão passar”, acrescenta o empresário Roberto Maglioca, proprietário da RSA Top Solutions, uma consultoria de informática. Cansado de sempre chegar atrasado aos compromissos profissionais, ainda que saísse com antecedência para cumpri-los, Maglioca decidiu “aposentar” o carro. “Atualmente, os congestionamentos são uma constante da cidade, e não mais uma exceção. Eles ocorrem até em fins de semana, feriados e horários que não são de pico. Para não passar tanto nervoso, comprei a moto.”

Convite ao humor

O cansaço, o mau humor e o estresse fazem parte do cotidiano dos moradores de São Paulo. Desde agosto do ano passado, porém, o Psicólogos do Trânsito vem realizando o milagre de fazer o paulistano rir em pleno engarrafamento. Inspirado no Doutores da Alegria, o grupo que decidiu humanizar o trânsito de São Paulo diverte os motoristas que passam à noite no cruzamento das ruas Henrique Schaumann e Teodoro Sampaio, em Pinheiros, zona oeste da capital. Vestidos de palhaço, os seus seis simpáticos integrantes – Guilherme Brandão, 25 anos; Thiago Velloso, 24 anos; Marcos Bordenalli, 36 anos; Andréa Brandão, 26 anos; Mara Brandão, 38 anos; e Paula Seoane, 21 anos –, usam o tempo dos carros parados no semáforo para fazer o paulistano sorrir, deixando o congestionamento menos estressante.

Com cartazes educativos, os jovens se posicionam na faixa de pedestres. Brincam, fazem divertidas performances e mandam beijos para os motoristas. De imediato, muitos fecham o vidro do carro. No fim da apresentação que dura apenas um minuto, o grupo levanta uma faixa com a frase “Um dia sem sorrir é um dia desperdiçado”, de Charlie Chaplin. Na mesma hora, o comportamento dos motoristas muda. Tocam a buzina, abrem o vidro, acenam, aplaudem e seguem alegres pelo trânsito.

Os voluntários não têm patrocinadores. O trabalho se paga com um sorriso e bom-humor. “Somos paulistanos comuns, pessoas que acordam cedo e enfrentam o trânsito para ganhar o pão”, conta Guilherme. Na segunda e sexta-feira à noite, essa rotina é quebrada. Depois do trabalho, os jovens se reúnem na sede da entidade, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo.

Ali, se vestem de palhaços e rumam ao cruzamento, onde das 19h30 às 21h30, alegram os motoristas, exceto quando chove. “Gostaríamos de expandir essa iniciativa para outros semáforos, mas não temos recursos para isso”, diz Guilherme. Além a manutenção do site http://www.psicologosdotransito.org, o grupo tem despesas com maquiagens, fantasias e aluguel da sede. “Hoje, nossa maior dificuldade é a parte financeira, mas ela não é maior que a vontade de ajudar e alegrar as pessoas”, conclui.

Sinal de alerta

Nas principais ruas da capital multiplicam-se os motociclistas que pensam como o empresário Roberto Maglioca. São paulistanos que fogem do estresse de ficar presos em congestionamentos monstruosos. Na ânsia de ser pontuais nos compromissos, são imprudentes e provocam ou são vítimas de acidentes, muitas vezes fatais – a quantidade de motoqueiros mortos no trânsito de São Paulo aumentou em 11,7% em 2010. Para dar uma ideia, as ocorrências com motos correspondem a uma em cada cinco chamadas de socorro recebidas todos os dias pelo Corpo de Bombeiros.


Ainda no ano passado, 1.357 pessoas perderam a vida em decorrência de 26.370 acidentes de trânsito na cidade de São Paulo. O número é 1,8% inferior ao do ano anterior, quando a quantidade de vítimas fatais chegou a 1.382. “Embora a Secretaria Municipal de Transportes (SMT) tenha aumentado os investimentos na fiscalização, o que teve reflexos diretos sobre o número de vítimas fatais de acidentes, as mortes no trânsito paulistano são preocupantes, principalmente em duas categorias: pedestres e motociclistas”, destaca a assessoria de comunicação da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).

Para melhorar a segurança do trânsito da cidade, a SMT colocou em prática algumas iniciativas. Em 2008, proibiu o tráfego de caminhões e de ônibus fretados em uma área de 100 km² do centro expandido, das 5 horas às 21 horas. Em 2010, estendeu a proibição a outras vias da capital, como a Marginal Pinheiros, as avenidas dos Bandeirantes, Jornalista Roberto Marinho e algumas ruas e avenidas do bairro do Morumbi. Restringiu ainda o tráfego de motos na pista expressa da Marginal Tietê e de caminhões na Marginal Pinheiros e Avenida dos Bandeirantes, além de ter reduzido o limite de velocidade dos veículos pesados de 90 km/h para 70 km/h nas marginais Tietê e Pinheiros.

A fiscalização eletrônica foi reforçada com ampliação da rede de radares nas ruas e avenidas, em algumas delas foram criadas motofaixas, como nos corredores Sumaré e Vergueiro/Liberdade. O número de ciclovias e ciclofaixas foi ampliado, assim como foram desenvolvidas operações em corredores de ônibus para aumentar a velocidade dos coletivos. Segundo a CET, essas ações resultaram na maior fluidez do trânsito. Comparando as médias do segundo semestre de 2009 com o segundo semestre de 2010 houve melhora de 22% nos índices de lentidão em toda a capital – de 72,9 km passaram para 56,9 km, das 7 horas às 20 horas.

Bem escasso

“Fazer o trânsito fluir é um dos grandes desafios do poder público. A tarefa implica administrar o sistema viário, que é um bem público cada vez mais escasso em São Paulo”, comenta Roberto Scaringella, secretário de Transportes de Jundiaí, interior de São Paulo. Ex-diretor da CET de São Paulo e do Conselho Nacional do Trânsito (Contran), Scarigella sabe muito bem o que fala: trabalha com o trânsito há mais de 40 anos. “Em um sistema de trânsito saturado como o da capital, se 15% dos veículos forem retirados de circulação, a fluidez do trânsito melhorará. Mas isso só será possível se o poder público colocar em prática algumas medidas restritivas.”

Por considerar o congestionamento injusto para quem não tem carro, Scaringella defende a cobrança pelo uso das ruas: o pedágio urbano, uma solução socialmente mais justa – pagaria esse pedágio quem tem carro, quem provoca o congestionamento. A iniciativa funcionaria da seguinte maneira: o poder público fixaria um preço capaz de inibir a circulação de veículos nos horários de pico nas ruas e avenidas saturadas, enquanto chips nos carros acusariam que o motorista está trafegando por ali naquele horário. O sistema enviaria a conta para esse motorista no fim do mês.

Segundo Scaringella, o pedágio urbano é uma medida antipática, mas só a com sua adoção a fluidez do trânsito paulistano melhorará. Pior do que os congestionamentos é a grande quantidade de pessoas que morre ou fica inválida em acidentes de trânsito. “Teoricamente, todos acham que a segurança deve prevalecer sobre a fluidez do trânsito, mas na hora de agir prevalece o contrário”, sustenta. A solução é o poder público investir em segurança: educar o motorista e ampliar a fiscalização, multando os infratores.

Em vigor desde 1998, o Código Nacional de Trânsito (CNB) prevê, por exemplo, que o carro só seja licenciado depois de passar por uma inspeção técnica de segurança, mas essa “vistoria” ainda não foi regulamentada pelo Contran. Assim, os órgãos de trânsito licenciam o carro após olhar a sua documentação, não verificando se tem freio e se está em condições para circular com segurança. “Como o brasileiro não se preocupa com a manutenção preventiva do carro, acha que dirigir é algo banal e não tem noção de risco, acaba se envolvendo em acidentes”, observa.

A maioria dos acidentes é provocada pelo comportamento do motorista: dirige embriagado, fala no celular e corre. Scaringella explica que para extinguir essas condutas é preciso fiscalizar, multar e, sobretudo, educar. Mas também nesse último quesito o CNT não está regulamentado. Ele estabelece que o Ministério da Educação desenvolva conteúdos de educação de trânsito para as escolas de primeiro, segundo e terceiro grau, o que não acontece até hoje. “ Se a lei fosse cumprida, os acidentes de trânsito diminuiriam, assim como os gastos do orçamento destinados à saúde”, afirma.

Donos da rua

Autor do livro Fé em Deus e Pé na Tabua – Ou Como e Por Que o Trânsito Enlouquece no Brasil (Ed. Rocco), o antropólogo Roberto DaMatta afirma que o comportamento individualista, agressivo e violento do motorista tem sua origem na constituição cultural do Brasil, um país com origem escravista e que se tornou republicano sem abandonar a aristocracia. O trânsito é só um reflexo disso. No Brasil, o automóvel é visto e usado como instrumento de poder, dominação e divisão social. Não é só. Nos demais países o espaço público é visto pelos cidadãos como pertencendo a todos, aqui, os pedestres são cidadãos sem direito de exercer sua cidadania com a igualdade de ocupar um espaço que é de todos.

Nesse contexto, os motoristas consideram os pedestres como obstáculos que atrapalham o trânsito. Os pedestres, por sua vez, também desrespeitam as leis e atravessam a rua com sinal fechado ou fora das faixas. Ambos desrespeitam as regras do sistema e criam, cada um à sua maneira, a sua relação com a rua. “O brasileiro não aprende em casa ou na escola a ver o outro como alguém que tem os mesmos direitos de usufruir o espaço que é de todos. Para nós, é o contrário: o espaço de todos pertence a quem ocupá-lo primeiro, com mais agressividade”, diz DaMatta.

Segundo ele, fechar, xingar e ser agressivo no trânsito são apenas um sinônimo do conceito do “sabe com quem está falando?” e do “jeitinho brasileiro”, práticas comuns no Brasil que, apesar de República, jamais perdeu sua cultura aristocrática.“O brasileiro se considera aristocrático no trânsito, mas é essencialmente um transgressor: não obedece a lei, dirige embriagado, desrespeita os pedestres, tem um esquema próprio para transferir suas multas e, quando parado por um policial, tenta suborná-lo”, comenta. “Somos aristocráticos, sim”, reafirma o antropólogo. “Não temos educação, do ponto de vista da igualdade. Obedecer no Brasil significa subordinação e inferioridade. Quem é superior, não obedece. Quem faz as leis, não obedece.”

Também as incivilidades praticadas no trânsito são cometidas sempre pelos outros motoristas, nunca por quem está ao volante. Daí a dificuldade em se criar a cultura da direção defensiva, na qual os motoristas se antecipam às reações e ações dos outros motoristas. “Afinal, quem tem de se preocupar com prevenção é sempre o outro. É ele que tem de abrir caminho para o dono da rua.” Mas, afinal, qual é a solução para combater os ecos de escravidão e de clientelismo que permeiam a sociedade brasileira? DaMatta seque pestaneja: “Temos de falar mais em igualdade, ensinar mais igualdade. O motorista, a sociedade brasileira deve ser educada, debater, conhecer e reconhecer as suas qualidades e fragilidades. Só assim conseguirá amadurecer e mudar.”

 

Movido à raiva

A raiva está relacionada a comportamentos agressivos e a pessoa que mais se irrita é também a que mais tem tendência a ser agressiva no trânsito. Essa é a conclusão da primeira tese de doutorado sobre erros e violações com dados de motoristas brasileiros, defendida em 1994, pela psicóloga Cláudia Aline Soares Monteiro, no Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (DF). Na pesquisa “Variáveis Antecedentes de Erros e Violações de Motoristas”, a pesquisadora traçou perfil dos motoristas que mais sentem raiva, conduzem agressivamente, erram e violam as leis do trânsito.

Dos 923 entrevistados, 84% dos motoristas admitiram ter pensado em fazer ou ter cometido agressão física, 84% dos condutores revelaram ter se comportado de modo agressivo, 83% afirmaram sentir raiva enquanto dirigiam e 83,9% confessaram ter xingado.  Entre outros dados, o estudo comprovou que as pessoas com mais tempo de habilitação cometiam mais erros e eram mais agressivas. Já os jovens de ambos os sexos, de até 27 anos, solteiros e sem filhos eram os que mais cometiam infrações.

Na época em que defendeu sua tese, Claudia disse que para resolver esses problemas era preciso investir na educação do trânsito, ensinando os motoristas a lidar com as situações estressantes, como a pressa e a irritação com outros motoristas e pedestres. Ouvir uma música e respirar fundo foram algumas dicas da psicóloga para quem desejasse manter a calma. O Estado também deveria fazer sua parte: colocar placas de sinalização e semáforos, além de fiscalizar o cumprimento das leis. Passadas quase duas décadas desde que a psicóloga defendeu a tese, seus conselhos continuam atuais, já nesse tempo todo o trânsito só piorou.

~ por Fabíola Musarra em Agosto 17, 2011.

3 Respostas to “Parada obrigatória”

  1. Que lindo ler e ver que o nosso objetivo está sendo conquistado!
    Muito obrigado pelas palavras e pelo carinho…
    Um grande beijo de toda a trupe Psicólogos do Trânsito!
    Carinhosamente,
    Guilherme Brandão

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