Eram os deuses geométricos?

Estudo de sítios arqueológicos na Amazônia poderá revelar o passado dos habitantes da América do Sul antes da chegada dos colonizadores. Na década de 1970, naquele solo foram descobertos os geoglifos – figuras geométricas de grandes dimensões que poderiam ser a reprodução das imagens de deuses cultuados pelos antigos povos –, mas isso ainda é um desafio para a ciência

Por Fabíola Musarra

Equipes multidisciplinares do Brasil e do Exterior estão na Amazônia onde esperam desvendar o passado dos povos que habitaram a região muito antes que a maior floresta do planeta fosse formada. Baseados em imagens aéreas, os pesquisadores dedicam os seus dias ao estudo dos geoglifos – imensas figuras circulares, quadradas, retangulares, octogonais e em outras formas geométricas desenhadas no solo do Acre, de Rondônia, do sul da Amazonas e do norte da Bolívia. A análise dessas colossais estruturas de terra sugere que uma civilização bem maior e mais desenvolvida do que se supunha já habitava a região antes do descobrimento do Brasil.

A versão histórica predominante é de que a Amazônia era povoada por pequenas tribos de índios, que viviam em terra firme, em locais distantes dos rios. No entanto, as fotografias aéreas e as imagens de satélite desmistificam essa teoria, pois mostram que os geoglifos foram erguidos tanto em solo firme quanto em terrenos próximos aos rios. A descoberta também coloca em xeque a teoria de que os povos amazônicos viviam em sociedades simples, que nada produziam de perene além de cerâmicas.

O questionamento dessa teoria sobre as “limitações intelectuais” dos povos amazônicos começou na década de 1990, quando o geógrafo e paleontólogo Alceu Ranzi – um dos principais pesquisadores da equipe brasileira – sobrevoou a região e percebeu a grandiosidade daquelas gigantescas figuras, constatando que não eram construções naturais. Hoje, sabe-se que os geoglifos amazônicos foram erguidos a partir da escavação de um fosso. A terra escavada ia sendo colocada cuidadosamente na parte externa e formava uma mureta. Desse modo, criava-se um desenho geométrico, em alto e baixo relevo.

São, portanto, construções engenhosas feitas por aqueles indígenas que teoricamente não sabiam criar nada além de cerâmica. Além disso, essas grandes formas geométricas desenhadas na terra têm entre 113 a 200 metros de largura e entre 30 centímetros a 5 metros de profundidade. Elas foram vistas pela primeira vez no Acre, norte do Brasil, em 1977, quando foi feito um levantamento na região pelo arqueólogo Ondemar Dias, da UFRJ. Do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas na Bacia Amazônica – como foi chamada a primeira etapa do projeto – participaram Ranzi e o arqueólogo Franklin Levy.       

Na ocasião, a equipe identificou 8 geoglifos circulares, mas a pesquisa não foi divulgada. Entre 1986 e 1999, Ranzi identificou 24 novas estruturas e percebeu que se tratava de um fenômeno regional, batizando as figuras com o nome de geoglifos, cujo significado quer dizer desenho na terra. A descoberta só foi possível devido ao desmatamento da região nos últimos 40 anos. Até a década de 1970 os grandes projetos agropecuários não haviam invadido a Amazônia Ocidental, a floresta estava intacta e os geoglifos permaneciam escondidos pela copa de árvores, o que impossibilitava a observação.

Em 2000, as pesquisas se intensificaram, assim como os sobrevoos para a obtenção de fotos aéreas visando o registro dos geoglifos. Imagens de satélite e o Google Earth permitiram a localização de novos geoglifos sem a necessidade de usar aviões. Hoje, graças às essas tecnologias, já foram identificados 270 figuras geométricas. No entanto, os pesquisadores afirmam que, devido à dificuldade de observar a Amazônia via satélite, os geoglifos encontrados podem ser apenas 10% do total existente na região.

Grande parte dessas formações fica próxima à divisa entre os Estados do Acre e do Amazonas. Já foram identificados 20 geoglifos no sul do Amazonas, em uma área desmatada próxima ao Acre. Como o Estado do Amazonas é mais preservado, é possível que existam muitos mais sob a floresta. Em Rondônia, também já foram localizados 10 deles em imagens de satélite. Na Bolívia, várias equipes já identificaram 62.

Rituais religiosos

Os pesquisadores ainda não sabem para qual finalidade esses imensos espaços eram usados pelos antigos povos amazônicos. Alguns acreditam que eles tinham um significado simbólico ou religioso. Outros acham que a remoção da vegetação em algumas áreas pode ter algum tipo de função militar. De qualquer modo, descobrir quais foram as culturas amazônicas responsáveis pela construção dos geoglifos são perguntas que os projetos multidisciplinares em andamento tentam responder.

Outra incógnita é a grandiosidade das estruturas do Acre. Para Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida (EUA), os geoglifos tinham finalidades cerimoniais. Uma das razões de sua monumentalidade seria a comunicação com seres superiores. “Não temos inferências para afirmar que os geoglifos estavam alinhados ou direcionados para algum corpo celeste”, diz Denise Pahl Schaan, pesquisadora do CNPq e coordenadora do grupo de pesquisa Geoglifos da Amazônia Ocidental.

Essas imensas valetas serviam para circundar um espaço aberto interno que era usado para encontros, rituais religiosos, moradia em alguns casos. Esse recinto interno chega a ter 300 metros de diâmetro no caso dos geoglifos circulares”, prossegue Denise. Segundo ela, os construtores dos geoglifos foram as primeiras sociedades sedentárias do Acre. Eles habitaram a região há mais de 2000 anos e, possivelmente, eram povos agricultores, que viviam em aldeias. 

Co-organizadora do livro Geoglifos – Paisagens da Amazônia Ocidental, Denise lembra que, em 1887, o então governador de Manaus (AM) ordenou ao coronel Antonio Labre subir o Rio Madeira e encontrar uma rota por terra em meio aos entrepostos de produção de borracha no Rio Madre de Diós e algum ponto navegável do Rio Acre. Ao seguir por terra até o Rio Acre, Labre passou por várias vilas da etnia araona (da família linguística tacana).

Na fronteira do Estado, o militar encontrou uma vila povoada por umas 200 pessoas e ficou impressionado com a sua organização social. Ali aprendeu que aqueles povos adoravam deuses de formato geométrico, esculpidos em madeira. As efígies eram mantidas em templos no meio da floresta. O pai dos deuses tinha forma elíptica e chamava-se Epymará. “Labre não descreveu os templos, mas tudo nos leva a cogitar sobre as possíveis funções religiosas dos geoglifos, encontrados não muito longe das antigas aldeias araonas”, comenta Denise.

Savana

A ocorrência de geoglifos no Acre também é um forte indicativo de ausência da floresta. Posteriormente, a mata ocupou e recobriu a paisagem cultural dos povos construtores dos aterros. Denise diz que é provável que na região existissem áreas abertas de savana, mas os cientistas ainda não têm certeza. Por isso, coletaram amostras para realizar análises que deverão esclarecer o assunto. O material está sendo analisado no Reino Unido, na Universidade de Exeter.

Para realizar as pesquisas, os cientistas recorrem ao sensoriamento remoto, técnica que utiliza imagens de satélites, fotografias aéreas e sobrevoos com pequenos aviões, além de um georradar da Universidade Federal do Pará. “A disponibilidade de imagens de satélite tem sido fundamental para os nossos estudos, assim como softwares para cruzamento de dados culturais e geográficos, como o ArcGis. Além das imagens gratuitas do Google Earth, o governo do Acre nos fornece imagens do satélite Formosat”, afirma Denise.

Os cientistas também visitam os sítios identificados para tirar medidas, fazer coletas e registros. O estudo contribui para novas interpretações sobre como os antigos amazônidas viviam, como era a sua organização sociopolítica e até onde foi o seu esforço em contornar os obstáculos do meio ambiente. “Esse conhecimento é fundamental para subsidiar programas de preservação do patrimônio arqueológico da região”, finaliza Denise. Apesar de sua relevância, os geoglifos estão ameaçados. Seus maiores inimigos são as plantações de cana, o pisoteio do gado, as máquinas agrícolas, os assentamentos de terra e as estradas, que já danificaram muitos deles.

Para saber mais Geoglifos – Paisagens da Amazônia Ocidental, organizadores Denise Pahl Schaan, Alceu Ranzi e Antonia Damasceno Barbosa, 100 págs., R$ 50. Exemplares podem ser adquiridos pelo e-mail: ppgacampos@ufpa.br.

 

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~ por Fabíola Musarra em Agosto 2, 2011.

4 Respostas to “Eram os deuses geométricos?”

  1. Boa tarde linda Fabíola! Passei para parabenizar o seu blog (que está ótimo) e te dar ainda mais força para que você contínue sempre assim; crítica com uma sabedoria única! Bjão
    Rodrigo Maia.

  2. Vale apena ler, seguir, elogiar, esta pessoa merece…
    Abs Fabíola.

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