Rondônia – Pelos trilhos da Madeira-Mamoré

Em pleno coração da Floresta Amazônica, o jovem Estado brasileiro transpira exótica beleza e muita história. Suas duas mais antigas cidades – a capital Porto Velho e Guajará-Mirim – abrigam a antiga Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, por onde escoava o látex brasileiro e boliviano nos áureos tempos do ciclo da borracha

Por Fabíola Musarra 

Todo o cansaço da longa viagem – especialmente se ela tiver conexões e se o destino não for a capital –, é recompensado pelos encantos de Rondônia, um Estado que pertence à Região Norte do País e que geograficamente faz limite com o Acre, o Amazonas, o Mato Grosso e a Bolívia. Esta última é a porta de acesso a concorridos destinos turísticos sul-americanos, como La Paz (Bolívia), Cuzco (Peru) e Machu Pichu (Peru). Não conheci os 52 municípios que integram o Estado, mas visitei as suas duas cidades mais antigas: a capital Porto Velho e a pequenina Guajará-Mirim e posso assegurar que elas são singulares e têm charme para dar e vender.

Ponte entre a Amazônia e o centro-oeste brasileiro, Rondônia fica em plena Floresta Amazônica – ainda possui dois terços de sua área cobertos por ela, na maior bacia hidrográfica do mundo. Só esse fato dispensa qualquer comentário sobre a exuberante beleza do Estado, totalmente povoado por uma exótica fauna e flora. Mais cosmopolita, Porto Velho também aconchega em seu solo várias preciosidades naturais e históricas. É banhada pelas águas barrentas do maior afluente da margem direita do Amazonas: o Rio Madeira.

Do porto situado em sua margem, há saídas para passeios turísticos de barco. O trajeto mais comum segue do Rio Madeira até a Corredeira Santo Antônio, num passeio com duração de 45 minutos (é preciso ter um mínimo de dez pessoas). O preço individual é em torno de R$ 15, mas pode aumentar dependendo do percurso e dos serviços – alguns barcos oferecem refeições, bebidas e música ao vivo. Também é do porto que parte a hidrovia que passa por Manaus, a capital do Amazonas, e chega ao Oceano Atlântico. Muitos dos navios que dali saem vão rumo a Manaus, numa viagem que pode demorar de três a quatro dias. 

Quase em frente ao rio fica uma fascinante relíquia de Porto Velho, especialmente para quem gosta de história: a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM). Construída entre 1907 e 1912, a ferrovia de 366 quilômetros de extensão atraiu migrantes e imigrantes do mundo todo, sendo a responsável pelo desenvolvimento da capital no século passado e por ela ter se tornado tão multicultural – por suas ruas transitam diferentes nacionalidades e, como resultado disso, seus restaurantes oferecem desde peixes até comida chinesa e japonesa, passando pela árabe e russa, só para citar algumas.

Quando estava sendo construída, a EFMM foi popularmente apelidada de Ferrovia do Diabo. O motivo? Durante a execução da obra, milhares de pessoas que nela trabalhavam morreram por terem contraído doenças tropicais. Apesar disso, a EFMM teve um papel fundamental para o desenvolvimento econômico do Estado: unia Porto Velho a Guajará-Mirim, facilitando o escoamento até o Oceano Atlântico das borrachas brasileira e boliviana que seriam exportadas.

Desativada definitivamente em 1972 – após ter protagonizado momentos de glória e períodos de total abandono, a estrada de ferro, as locomotivas que nela operavam e os galpões onde funcionavam o museu e a antiga oficina da ferrovia estão sendo recuperados pelos governos federal e municipal. A primeira etapa da obra de revitalização do Complexo Madeira-Mamoré, como é conhecido o conjunto dessas obras, já foi concluída. Ela previa a recuperação de dois galpões da antiga estação de Porto Velho. Em breve, um deles abrigará oficinas de teatro, música, dança, artesanato e pintura, além de uma praça de alimentação. Já no outro funcionará um centro de convenções e um teatro de arena do lado externo.

O novo visual dos dois armazéns (há um terceiro que pertence à Marinha) e de duas das “marias-fumaças” que transportavam o látex nos prósperos tempos do ciclo da borracha já podem ser vistos no centro histórico da capital, às margens do Rio Madeira. Mas a etapa mais legal do projeto será quando as locomotivas voltarem a funcionar, constituindo-se em um divertido atrativo turístico – elas percorrerão a antiga estrada de ferro (também será recuperada), fazendo um trajeto aproximado de sete quilômetros da estação até a igrejinha de Santo Antônio, a poucos quilômetros dali.

A capelinha – por si só – já é uma atração à parte da capital de Rondônia e merece ser conhecida. Sua construção foi concluída em 1914, após o término da construção da EFMM. Situada próxima à Cachoeira de Santo Antônio, a pequenina igreja foi erguida onde existia uma vila, que chegou a ser elevada a município. Com o tempo, o lugar foi decaindo e a população local mudou-se para o entorno da ferrovia, dando origem a Porto Velho. 

As Três Marias

Além do Complexo Madeira-Mamoré, a cidade preserva espalhados por suas ruas vários outros “pedacinhos” de sua história. Percorrer o antigo centro, na parte alta da cidade, é aprender sobre um passado não tão remoto de um dos mais novos Estados brasileiros, que apenas ganhou esse status em 1981, quando deixou de ser território. Na Rua Rogério Weber, por exemplo, encontra-se um dos principais símbolos da capital: as três caixas de águas, também carinhosamente chamadas de As Três Marias.

Os reservatórios foram projetados e construídos pela Chicago Bridge & Iron Works, de Chicago, nos Estados Unidos. O primeiro chegou em 1910, enquanto os outros dois foram erguidos em 1912. Com capacidade média de 200 mil litros cada, eles abasteceram a cidade com água potável até 1957. Quatro colunas de ferro feitas em treliça sobre fundação de concreto sustentam cada uma das três caixas de água de forma cilíndrica. Os tanques dão nome ao lugar onde se situam: Praça das Caixas d’Água.

Próximo dali – na Carlos Gomes com a Rogério Weber – fica a Casa da Cultura Ivan Marrocos (www.casadaculturaivanmarrocos.wordpress.com). Inaugurada em 2004, funciona diariamente das 8 horas às 18 horas, com exposições de arte, fotografia e outros eventos culturais. Também é ali pertinho que ficam a Catedral Sagrado Coração de Jesus (Rua Dom Pedro 2º), o Seminário Maior João 23, o setor administrativo da Universidade Federal de Rondônia (até os anos 70, a construção, iniciada em 1948 e concluída em 1953, sediou o primeiro hotel da cidade: o Porto Velho) e o Palácio do Governo, inaugurado em 1954 pelo então presidente da República, Getúlio Vargas.

A capital também possui vários mirantes às margens do Rio Madeira. O do Café Madeira é bastante agitado, especialmente à noite quando se transforma em animado ponto de encontro (fica na Rua Major Amarante, 189). Com cardápio diversificado que inclui desde petiscos a elaborados pratos, funciona diariamente a partir das 18 horas. Sentar em uma de suas mesinhas e assistir o pôr do sol, com seus raios dourados “mergulhando” um a um nas águas e tingindo de dourado o Rio Madeira, é sempre um espetáculo imperdível. Esse mesmo show pode ser testemunhado em outros pontos da cidade: no mirante situado no número 269 do início da Avenida Sete de Setembro, ou mesmo nos bancos das pequenas praças situadas às margens do Rio Madeira.

Embora os bares que funcionam nesses dois mirantes não fiquem abertos e recolham suas mesas de madrugada, também é possível assistir o astro-rei inaugurar mais um novo dia nesses lugares. Se depois disso, a fome bater é só seguir adiante pela Avenida Sete de Setembro rumo ao Mercado Central, em frente ao Prédio do Relógio. Como o próprio nome sugere, o local comercializa os produtos típicos da região. Mas, ao contrário de outros do gênero, ele tem ainda como um dos seus pontos fortes o café da manhã – tomar o desjejum ali é um hábito bastante comum da população local.

Porto Velho tem ainda inúmeros tesouros a serem desvendados, como o Mercado Cultural (Rua Barão de Rio Branco com Rua José de Alencar), a construção de 1915 onde funcionava o antigo mercado. Ele foi destruído por um incêndio em 1966 e recentemente voltou a abrir suas portas, constituindo-se hoje em palco para eventos culturais. Além dele, há a feira que acontece das 18 horas às 22 horas na Praça Aluízio Ferreira nos finais de semana, com muitas barraquinhas de artesanato, comida e música ao vivo. Por falar nisso, a noite na capital é bem animada. A Avenida Pinheiro Machado é o seu principal point do agito, concentrando em suas calçadas efervescentes barzinhos, boates e danceterias.

Morada da paz

A paisagem parece ter sido caprichosamente desenhada pelo tempo. Tudo – rios, céu, fauna e vegetação – está no lugar certo. Ali a paz mora e tem um endereço: o Pakaas Palafitas Lodge, um hotel de selva situado em Guajará-Mirim, município a 320 quilômetros de Porto Velho. É claro que esta não sua única moradia, mas é dela, do deck da piscina no hotel, que se pode vislumbrar uma das paisagens naturais mais memoráveis deste país tupiniquim: o encontro dos rios Pacaás Novos com o Mamoré, este último dá origem ao Rio Madeira após unir-se ao Rio Beni que vem da Bolívia.

O Pacaás Novos é de um negro intenso. Já o Mamoré é marrom e barrento. Lá adiante, onde a visão se perde em curvas e nos sinuosos vaivéns da Floresta Amazônica, está a Bolívia. Navegar pelas águas desses rios significa passear no meio de um rico ecossistema, observando aves, árvores centenárias, botos cor-de-rosa e cinza e outras exóticas espécies, num silêncio que só é quebrado pelo som das revoadas de pássaros. Espalhadas ao longo dos dois rios, várias aldeias indígenas. Entre elas, a oro dao (significa “povo superior”) e wari’ (pode ser traduzido como “nós”, “gente”), uma das poucas tribos que ainda falam a língua txapacura. Sua cultura é muito rica e o artesanato, repleto de cestarias, é deslumbrante.

Tanto a visita às aldeias indígenas como as trilhas, a focagem de jacaré, a pesca esportiva e as idas a Guajará-Mirim (o hotel fica um pouquinho afastado da cidade) e Bolívia, entre outros passeios, podem ser combinados na recepção do Pakaas. Na maioria das vezes o trajeto é feito de barco. Saindo de uma natureza praticamente intacta em direção a paisagens mais urbanas, pode-se conhecer a cidade de Guajará-Mirim, um pequeno município com menos de 50 mil habitantes, à beira do Rio Mamoré, na divisa com a Bolívia.

No centro da principal praça da cidade, a Madeira-Mamoré, também chamada de Praça dos Pioneiros, uma locomotiva é a atração. Com seu novo visual, resgata os tempos de glória dos seringais. Infelizmente, no mesmo local, a estação de trem construída no início do século 20 e transformada em museu histórico e outra maria-fumaça são o que mais chama a atenção.

A antiga construção onde também funcionava o telégrafo está interditada – o projeto para a sua recuperação já foi aprovado, porém a verba das obras não está sendo liberada. Como esse prédio, a outra locomotiva que fica ao lado dele denunciam mais um descaso do Governo para com o patrimônio histórico brasileiro: os dois ali jazem completamente entregues à ferrugem e ao abandono.

Na Rua 15 de Novembro – a mais importante do município – fica um centro de artesanato, com cestarias, colares e brincos indígenas, quadros e outros mimos regionais. Já nas proximidades do porto há várias lojas de produtos onde é possível comprar os importados (exceto bebidas e veículos) com isenção: Guajará-Mirim é uma zona de livre comércio. Como está decadente, a cidade boliviana de Guayaramerín, no outro lado do rio, acaba sendo uma tentação. 

No porto da cidade brasileira, a passagem de barco para o “paraíso” boliviano das compras custa R$ 4. A travessia pelo Rio Mamoré não é demorada e a Alfândega, logo na entrada de Guayaramerín, não costuma importunar. Cambistas que ali ficam trocam os reais por bolívares, a moeda nacional. No entanto, a troca é desnecessária, pois quase todas as lojas aceitam o real. Para nós, brasileiros, a maioria dos produtos comercializados custa barato, já que três bolívares equivalem a R$ 1.

Para dar uma ideia, um perfume de grife sai em torno de R$ 40; um uísque 12 anos, R$ 30. Mas há de tudo, de máquinas fotográficas, notebooks e outras parafernálias eletrônicas a roupas de cama e mesa, passando pelas bugigangas vendidas por camelôs nas calçadas. Os preços atraentes tornam o comércio efervescente, mas as lojas fecham no horário do almoço, do meio-dia às 14 horas. Por isso, o ideal e fazer as compras logo cedo ou depois do almoço.

Como sua irmã brasileira, Guayaramerín não é grande. As maiores lojas concentram-se em três quarteirões da principal rua de comércio, que começa já na entrada da cidade. Espalhados por ali também ficam os táxis bolivianos – as corridas saem em média por R$ 2 (até o mercado, por exemplo). Mas, mesmo que não se queira comprar nada mais distante, vale a pena dar uma volta em um deles. Lá os táxis não são como os de outros países do mundo, em veículos convencionais. Ao contrário, são mototáxis: funcionam como uma charrete movida por moto.

Assim com as antigas locomotivas de Porto Velho e de Guajará-Mirim, os mototáxis bolivianos, mais do que transportar passageiros, conduzem seus tripulantes numa lúdica viagem ao passado, ao mundo mágico da infância, onde os trenzinhos e as motocicletas – enquanto brinquedos – eram sempre sinônimos de diversão. Uma alegria que agora Rondônia, com a recuperação do Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, está tentando resgatar.      

SERVIÇO

Para saber mais

Rondônia tem fuso horário de uma hora a menos em relação a Brasília. No horário de verão, os relógios são atrasados duas horas e os bancos funcionam em horário diferenciado: das 8 horas às 14 horas. O clima predominante no Estado é o equatorial, com chuvas abundantes e temperatura média anual de 26ºC.

Informações turísticas: www.setur.ro.gov.br

Como chegar

Via aérea ­– Vôos nacionais até o Aeroporto Internacional de Porto Velho. A Gol Linhas Aéreas Inteligentes oferece vôos diretos para Porto Velho, com partidas das principais capitais. Site: http://www.voegol.com.br

Via terrestre ­– Via BR-364, em ônibus de linhas comerciais rodoviárias.

Onde ficar

Em Porto Velho

Aquarius Selva Hotel – Rua México, 2.141, tel. (69) 3225-2525, site: www.aquariushotel.com.br

Amazon Ambassador – Este criativo e sofisticado cinco-estrelas tem uma característica única: é um hotel flutuante de luxo que desliza pelo Rio Madeira. Como um hotel convencional, possui restaurante, bar com música ao vivo e academia. Seus quartos são equipados com ar refrigerado, cama king size, frigobar e tevê, entre outras comodidades. Fica na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, 2.270

Em Guajará-Mirim

Pakaas Palafitas Lodge – Este charmoso hotel de selva possui uma privilegiada vista: de sua piscina, restaurante e das cabanas frontais, o hóspede pode ver o encontro das águas dos rios Mamoré com o Pacaás Novos, além de botos cor-de-rosa e cinza que nelas se divertem. Construído sob palafitas e circundado por mais de dois quilômetros de passarelas suspensas, o hotel disponibiliza transfers e vários passeios para a região. Simpático, culto e educadíssimo, seu Paulo Saldanha, o proprietário, é uma pessoa encantadora e supercarinhosa, assim como toda a sua família. Caixa Postal 141, reservas pelos tels. (69) 3541-3058 3 (69) 9994-3878, site: www.pakaas.com.br

~ por Fabíola Musarra em Novembro 1, 2010.

2 Respostas to “Rondônia – Pelos trilhos da Madeira-Mamoré”

  1. Muito bacana as informaçoes tao concisas e historicas. Parabens!

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