Arquitetura e arte da Catedral da Sé

Vista da Catedral da Sé - SP

No período de 2000 a 2002, a terceira maior sede do catolicismo da cidade de São Paulo passou por um longo processo de restauração. Na época, acabou sendo tema de uma elaborada publicação. Lançado pela FormArte, o livro conta a história da Catedral da Sé, como é mais conhecida a igreja paulistana, desde a elaboração de seu projeto original em 1912 até os dias de hoje.  

Por Fabíola Musarra

Cartão-postal da capital paulista, a Catedral Metropolitana de São Paulo é uma atração imperdível para quem gosta de história e de arquitetura. Sem contar – naturalmente – para os fiéis. Há alguns anos, a igreja que está entre uma das cinco maiores góticas do mundo foi devolvida à população após ter passado por uma reforma que durou quase três anos e que incluiu obras de restauro e de recuperação interna e externa, além da construção de diversas partes não executadas do projeto original, de 1912. Pela importância que representa para a metrópole paulistana, a Catedral da Sé recentemente mereceu a publicação de um livro. Em suas 230 páginas, a caprichada edição bilingue (português-inglês) retrata o dia-a-dia da restauração de um dos mais antigos templos católicos do País.

Editado pela FormArte, o Catedral da Sé – Arte e Engenharia pode ser adquirido nas principais livrarias brasileiras. Tendo como pano de fundo a reforma da antiga igreja paulistana, mais do que discorrer sobre as obras de restauro e de recuperação, o livro resgata a história de um dos maiores marcos da arquitetura e da engenharia do País e do maior símbolo de São Paulo, o grande templo religioso, cujo entorno foi palco de tantos momentos marcantes da história do Brasil.

Inaugurada em 1954 antes mesmo ser concluída e após quatro décadas de obras, a Catedral da Sé, ao longo de tantos anos de existência, assistiu do alto de seus 92 metros de altura, o marco zero da capital paulista se transformar em cenário de inúmeras manifestações políticas. Casos do comício organizado pelos sindicatos no dia 1º de maio de 1914, das manifestações contra a ditadura de Getúlio Vargas em 1932 e dos atos públicos na década de 40 pela democratização política do País.

Em janeiro de 1994, a Catedral da Sé reuniu ao seu redor mais de 200 mil manifestantes no primeiro comício do Movimento das Diretas Já, que exigia eleições para a Presidência da República.

Na história contemporânea do Brasil, tornou-se símbolo das manifestações de resistência do autoritarismo do Golpe Militar de 1964. Em 1975, por exemplo, foi palco de ato ecumênico em protesto pelo assassinato do jornalista Wladimir Herzog, que foi preso pelo regime militar e morreu no Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Em janeiro de 1994, reuniu ao seu redor mais de 200 mil manifestantes no primeiro comício do Movimento das Diretas Já, que exigia eleições para a Presidência da República. Essas e muitas outras curiosidades estão contidas no livro, que documenta em suas páginas e fotos a importância do grande símbolo da arquitetura religiosa da cidade, a Catedral Metropolitana de São Paulo.    

Apogeu e decadência – Depois de ter sido palco de tantas manifestações, de ter presenciado de perto o crescente fluxo de veículos e ônibus em suas imediações e de ter visto a principal estação do metrô nascer (e ser inaugurada em 1978) praticamente sob as suas fundações, a Catedral Metropolitana de São Paulo – em função do tipo de solo onde foi construída e de todas essas interferências urbanas –, encontrava-se com sua estrutura comprometida, colocando em risco a segurança de seus frequentadores.

Sob alegação que a edificação apresentava riscos estruturais, o Departamento de Controle do Uso de Imóveis (Contru), órgão da Prefeitura de São Paulo, interditou a antiga igreja paulistana. A interdição aconteceu em julho de 1999, três meses depois da apresentação de um projeto de restauração e recuperação ao Ministério da Cultura. Algumas obras emergenciais foram realizadas para a reabertura parcial, de outubro de 1999 a maio de 2000, quando o projeto foi aprovado, possibilitando o início das obras de restauração.

Nos três anos em que a igreja permaneceu fechada foram reparados 52 vitrais e centenas de elementos artísticos, muitos deles datados do século 18. A reforma incluiu ainda a revitalização dos sinos da igreja, que já não funcionavam há cerca de quatro anos. De origem holandesa, os sinos feitos em bronze com estrutura de suporte metálica tiveram seus mecanismos completamente revitalizados. Desde a restauração, o carrilhão – composto por 61 sinos, 35 acionados eletronicamente – vem sendo tocado diariamente, fato indispensável para garantir o bom funcionamento e a apropriada manutenção do sistema. 

As obras de restauração solucionaram ainda vários outros problemas que ameaçavam a estrutura física da Catedral da Sé, abrangendo desde a correção de problemas de deterioração e desestabilização física (movimentação estrutural), fissuras, infiltrações de água, ataque de cupins até a substituição das estruturas elétrica e hidráulica. Antes de ser devolvido à população, um dos principais marcos da cidade foi inteiramente pintado e lavado, consumindo cerca de 6,2 milhões de litros de água e 3.630 litros de sabão neutro.

Em péssimo estado de conservação, o mármore (de procedência belga e italiana) e o granito também mereceram uma atenção especial. Materiais predominantes dos pisos da igreja, eles estavam bastante danificados devido às frequentes inundações, sendo que a cripta era a parte mais degradada. Trincados ou mesmo quebrados, muitos dos pisos de mármore tiveram de ser repostos. Para dar uma idéia, no acabamento foram utilizadas cerca de 800 toneladas de mármores raros.

O custo dessa primeira etapa do projeto foi de cerca de R$ 19,5 milhões. O montante obtido foi investido em duas etapas: fissuras, infiltrações de água, ataques de insetos xilófagos nas partes de madeira, deterioração de caixilhos e vitrais, readaptação das estruturas elétricas e hidráulicas, entre outros, e complementação das partes não executadas no projeto original (14 torreões secundários).

Projeto original – Os 111 metros de comprimento, 46 metros de largura, torres com 92 metros de altura cada e cúpula com altura de 30 metros nunca estiveram tão próximos do projeto original de concepção da Catedral da Sé. No projeto de restauração e recuperação apresentado pela Mitra Arquidiocesana de São Paulo ao Ministério da Cultura, por exemplo, já estava especificada a construção de 14 torreões que integravam o projeto original de construção da igreja.

Extremamente importantes na definição do estilo gótico, os torreões começaram a ser construídos em julho de 2001, quando a reforma da igreja já estava em andamento. Sua concretização, no entanto, exigiu uma intensa pesquisa. O aço e o granito – que compõem as duas torres datadas de 1956 – não eram adequados para a construção dos demais torreões, pois o peso desses materiais poderia afetar a estrutura do prédio. “O terreno onde está situada a Catedral da Sé é muito instável. Ela só está de pé porque foi construída devagar”, afirmou o arquiteto Paulo Bastos, responsável pelo projeto arquitetônico.

Depois de serem testados vários materiais, decidiu-se que o aço, em substituição ao concreto armado, e o GRC (em inglês, glass reinforced concrete, revestimento de argamassa com fibra de vidro) no lugar do granito seriam as melhores soluções. É a primeira vez que o GRC é usado em tais proporções no Brasil. “Esse tipo de estrutura, que também está sendo usada na Igreja da Sagrada Família em Barcelona, na Espanha, permite a redução do peso da estrutura em até 50%”, disse Maria Aparecida Soukef Nasser, gerente de obras da Concrejato.

De igreja a museu – Ao longo dos 48 anos da Catedral Metropolitana de São Paulo, os 51 vitrais artísticos passaram por manutenções totalmente inadequadas, com o uso de materiais que prejudicaram ainda mais sua preservação. Retratando desenhos de passagens bíblicas, histórias de santos e fatos históricos (a chegada dos portugueses ao Brasil, por exemplo), os vitrais, em sua maioria, foram encomendados da Itália e criados por artistas de renome internacional, como Max Ingrand, Francesco Bencivenga e Gilda Nagni, apresentando uma linguagem e qualidade diferenciadas daquelas utilizadas pela Casa Conrado, em São Paulo, onde o artista José Wasth Rodrigues havia concebido parte deles no início da década de 40.

Nos vitrais europeus, a história é contada quadro a quadro. Cada um de seus pintores manteve a tradição do estilo gótico em que o importante não é rápida compreensão da imagem, mas sim o efeito luminoso que ela representa. Já nos nacionais, a linguagem proposta é mais clara e moderna, com um desenho central detalhado e moldura de figuras geométricas que se repetem, possibilitando a total compreensão do vitral. Entre os nacionais e importados, foram restaurados 51 conjuntos, correspondendo a uma área de 750 metros quadrados. Os vitrais restaurados ganharam um vidro de proteção transparente de 4 mm, enquanto aqueles localizados nas fachadas laterais do primeiro nível receberam uma tela metálica de proteção.

Dois tipos de objetos integram o acervo artístico da Catedral da Sé: os móveis (esculturas, imagens sacras, mobiliário, livros e aparatos religiosos, entre outros) e os elementos integrados à arquitetura (esculturas em granito, mármore e bronze, capitéis, colunas, a iconóstase – parede de granito na qual estão esculpidas imagens sacras – localizada na Capela do Santíssimo e as 32 tumbas da cripta, por exemplo). Durante a reforma, todos eles foram submetidos a uma avaliação criteriosa e foram submetidos, no mínimo, a um processo de limpeza.

Os objetos artísticos móveis não foram restaurados, com exceção de um crucifixo de madeira datado do século 18. A restauração dos demais elementos ainda vem sendo feita, pois a maioria das peças faz parte do acervo museológico da igreja, projeto da Arquidiocese Metropolitana de São Paulo. Nos elementos artísticos integrados à arquitetura não foi necessária a substituição de materiais. De excelente qualidade e em bom estado de conservação, eles apenas estavam muitos sujos, em razão das dificuldades de manutenção e das infiltrações que afetavam a quase totalidade do templo católico.

Graças à excelente qualidade da madeira, as portas não foram atacadas por cupins. Entretanto, grande parte delas estava comprometida pelo excesso de umidade. No total, a igreja tem 34 portas (14 na área externa e 20, na interna). Todas são de madeira. As portas da parte externa foram feitas com jacarandá da Bahia, madeira atualmente difícil de ser encontrada. Um grande problema que afetava as portas era a dificuldade em movimentá-las devido ao peso (a porta principal tem mais de 400 quilos) e da ferrugem nas dobradiças. Para resolver a situação foi criado um sistema especial de acionamento que utiliza rolamentos de caminhões.

Ainda agora, o prédio da Catedral Metropolitana de São Paulo continua recebendo melhorias, com o objetivo de futuramente constituir-se em um espaço aberto à visitação pública. Na realidade, membros da Igreja católica estudam um projeto para transformá-lo em um museu, proporcionando à população o conhecimento de seu importante acervo artístico, histórico, arquitetônico e cultural. Obviamente, a finalidade religiosa do templo continuará sendo prioridade.

Segundo os religiosos, a criação do museu poderia possibilitar que os visitantes tivessem uma visão privilegiada da paisagem urbana de São Paulo. Acompanhados por monitores, eles poderiam seguir roteiros de visitação interna e externa, aprendendo a história da Catedral da Sé, da antiga Catedral Colonial e a sua influência na formação do centro histórico paulistano, utilizando também o topo de uma das torres como mirante da paisagem urbana de São Paulo.

A história

Alguns anos depois da fundação de São Paulo, a população da vila já reivindicava a construção de uma matriz à Câmara.  Na sessão de 7 de fevereiro de 1588 há registros de pedidos para que no povoado “aja viguairo e hornamentos e sino e todo ho mais ao culto devino”. Nesse mesmo ano, a Câmara determinou a construção da matriz. Na época já existiam na vila a Igreja do Colégio dos jesuítas e a Igreja de Nossa Senhora da Luz.

A construção foi cercada de contratempos. Homens encarregados pelas obras da igreja desistiram da empreitada. Na sessão de 25 de abril de 1600, a Câmara ordenou que os moradores recomeçassem as obras com seus escravos, já que não havia índios para o serviço. A Igreja Matriz só ficou pronta provavelmente em 1612, pois a partir desta data não se encontram mais referências nas atas.

O local era na região onde fica atualmente a Catedral e a Praça da Sé, sendo muito difícil determinar a exata localização por falta de registros históricos. Só se sabe que, em 1745, com a criação do bispado de São Paulo, ela já não era mais utilizada pelas suas péssimas condições. O bispo dom Bernardo Rodrigues Nogueira fez a entrada solene em São Paulo na igreja de São Pedro.

Provavelmente por iniciativa do vigário Mateus Lourenço de Carvalho, a outra matriz teve sua construção iniciada em 1745, no estilo das construções do tempo da colonização portuguesa. Com a entrada no século 20, a população paulistana começou a se manifestar a favor da construção de um novo templo. Decidiu-se que as duas construções não poderiam coexistir, já que a nova catedral deveria ocupar o mesmo espaço físico da antiga. A construção também reflete a necessidade de a sociedade paulista se desvencilhar dos laços da colonização.

Datado de 1912, o projeto da Catedral da Sé é de autoria do arquiteto e professor da Escola Politécnica, Maximiliano Hehl, que adotou o estilo gótico e a inclusão de uma cúpula de concreto sobre o cruzeiro, característica academicamente classificada como pertencendo à arquitetura religiosa renascentista. Iniciada em 1913, as obras foram acompanhadas por Hehl até sua morte, em 1916, quando então passaram a ser supervisionadas por outros professores da Escola Politécnica.

Na arquitetura gótica da catedral há elementos que receberam a influência da cultura brasileira, dando a ela um aspecto ímpar. Detalhes nos capitéis das colunas representam animais da fauna brasileira (como tatu, porco, morcego) e plantas da flora nativa (maracujá, jabuticaba, entre outras). Terminada a obra das fachadas, em 1946, foram escolhidos os artistas que comporiam o espaço interno do templo. Em 1952 iniciavam-se em Roma os trabalhos de execução dos diversos elementos artísticos, concluídos dois anos depois.

Em 1954, a Catedral da Sé foi inaugurada. Mas ela ainda não estava concluída. Em 1956 foi organizada uma comissão responsável pela “Campanha das Torres para São Paulo”, com o objetivo de angariar fundos para a construção das torres e o término das obras. O complexo das obras foi considerado concluído com a chegada do majestoso órgão, o maior da América Latina. Fabricado em Milão (Itália) pela indústria Balbiani & Bossi, o instrumento tem cinco teclados manuais, 329 comandos, 120 registros e 12 mil tubos, cujas bocas, de forma gótica, apresentam relevos entalhados à mão.

O local para sua instalação – atrás das colunas que rodeiam o altar-mor – foi definido segundo exigências de ordem técnica, visto que sua localização no coro, situada sobre a porta principal de entrada do templo, poderia comprometer a propagação do som. Esta decisão veio ao encontro do fato de que nas funções litúrgicas em templos de grandes dimensões, como é o caso da Catedral da Sé, o som se propague o mais próximo possível do altar-mor e dos fiéis.

 

Você sabia?

A Catedral da Sé foi construída no mesmo lugar da “velha Sé”, como era conhecida a matriz que foi demolida.

A Catedral da Sé é a maior igreja de São Paulo. Foi inaugurada em 1954, para os festejos do 4° Centenário da cidade de São Paulo.

Serviço

Catedral Metropolitana da Sé – Praça da Sé, Centro, tel. (11) 3107-6832.

Catedral da Sé – Arte e Engenharia,vários autores, fotografias de Iatã Cannabrava e fotos inéditas da longa construção, que atravessou cinco décadas do século passado, Editora FormArte, 230 págs.

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~ por Fabíola Musarra em Setembro 1, 2010.

3 Respostas to “Arquitetura e arte da Catedral da Sé”

  1. oi fabiola ,]
    estou a procura de fotos da construção da catedral !!
    alem do livro sabe onde posso encontrar ???
    muito obrigada
    ivone

  2. Olá Fabíola,

    Grande matéria, gostei.

    Apenas uma correçãozinha, o Trópico do Capricórnio fica mais ao norte e situa-se no parque da Cantareira, mais extamente no Horto Florestal, onde pode ser visto o marco com a informação.

    Cordiais saudações

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