MENINOS DO MORUMBI – No compasso do maestro

Por meio de atividades esportivas e cursos de música e dança gratuitos, a ONG resgata autoestima e a cidadania dos garotos carentes da região

Por Fabíola Musarra

É primavera, 12 de outubro, um dia de intenso azul no distante calendário de 1997. Nas avenidas de São Paulo, o sol e as azaléias – a flor símbolo da cidade – exibem a sua mais viva cor. No elegante bairro do Morumbi, na zona sul, o som é mágico. A batuta rege a música, que preenche todos os espaços. Atentos aos gestos do maestro Flávio Pimenta, um grupo comemora não apenas a data dedicada à Nossa Senhora da Aparecida, a padroeira do Brasil, ou ao Dia da Criança, mas o nascimento oficial da Meninos do Morumbi, uma ONG que tem como objetivo resgatar, por meio da música, a autoestima e a cidadania dos garotos carentes da região. “A música é uma ferramenta sedutora que pode competir com o ‘prazer’ que a rua oferece. Com o batuque dos tambores e o ritmo das danças e músicas afro-brasileiras, as crianças e adolescentes descobrem sua identidade e aprendem valores que os transformam em cidadãos”, afirma Pimenta, o maestro que fundou a entidade.

Desde que foi criada, a Meninos do Morumbi não parou de crescer. Começou timidamente na casa de Pimenta e, atualmente, oferece cursos de canto, dança, percussão, bateria, cavaquinho, contrabaixo, teclado, violão, condicionamento físico, jiu-jitsu, capoeira, fotografia, escultura, informática e inglês, beneficiando a quase três mil crianças e adolescentes de 25 favelas da zona sudoeste de São Paulo. Além dos cursos, seus integrantes também recebem alimentação – por mês são 25 mil refeições quentes – e têm acompanhamento psicológico, pedagógico, médico e odontológico. “Há mais de dez anos, dedico a maior parte do meu tempo à nossa instituição, embora tenha minha empresa prestadora de serviços em música e exerça atividades como músico e produtor”, diz o maestro.

Sua história e a da Meninos do Morumbi se confundem (é praticamente impossível separar uma da outra), mas tudo começou no início de 1996, quando ele encontrou três jovens pedindo esmola e nadando na lagoa suja de uma praça perto de sua casa, ao lado do Palácio do Governo do Estado, no Morumbi, e começou a ensinar música para eles em seu estúdio. Dos três alunos iniciais, Pimenta terminou o ano de 1996 com mais de 100 alunos, entre os seus particulares e os vindos das favelas paulistanas de Paraisópolis, Porto Seguro, Colombo e Jaqueline, do SOS Criança e da Febem. “Em maio 1996, eu ia morar nos Estados Unidos, mas o grupo de percussão cresceu tanto e eu fui me envolvendo cada vez mais. No fim, desisti de ir embora.”

O maestro Flavio Pimenta, o idealizador da ONG paulistana Meninos do Morumbi.

Com o crescente interesse da meninada em aprender música, o estúdio do maestro foi ficando pequeno. Em poucos meses, já não comportava mais tanta gente. Os ensaios do grupo aconteciam nas ruas e volta e meia o pessoal do bairro chamava a polícia. “Alguns vizinhos jogavam ovos e tomates em nós”, recorda Pimenta. Para fugir dos contratempos, ele falava para as crianças não se importarem com aquelas reações, argumentando que no futuro teriam uma sede, tocariam em programas de tevê, viajariam para o Exterior e seriam aplaudidos. “Ao me ouvir, um moleque disse que eu havia pirado, mas a verdade é que alcançamos todos os nossos sonhos e muito mais”, orgulha-se ele.

Uma das apresentações dos Meninos do Morumbi , uma ONG de Sâo Paulo.

Em seu segundo ano de existência, a associação sem fins lucrativos saiu da informalidade e foi registrada legalmente, passando a ter um estatuto e a funcionar numa casa alugada. Apesar da pequena vitória, as necessidades ainda eram muitas e os recursos continuavam escassos. Pimenta decidiu ir atrás de parcerias. Conseguiu algumas, como a feita com a Federação de Obras Sociais, no final de 97, e com o Projeto Travessia. “Trabalhava praticamente sozinho e a minha maior dificuldades foi encontrar parceiros. Hoje, estabelecemos parcerias que nos permitem oferecer várias atividades para as crianças.”

Também foi em 1997 que os primeiros funcionários foram contratados (na ONG todos são remunerados, não existindo voluntários) ao mesmo tempo em que começavam as primeiras apresentações públicas do Meninos do Morumbi. O grupo musical foi ganhando uma identidade. Pouco a pouco, se sentindo como uma banda. “Até agora somos assim, fugimos do estigma assistencialista, não pedimos dinheiro às pessoas. Hoje, 60% do nosso orçamento vêm das apresentações públicas com o grupo artístico. Alguns de nossos parceiros contribuem com insumos ou com serviços; outros com recursos financeiros, através da Lei Rouanet. Temos também alguns parceiros em programas, como universidades, escolas, profissionais liberais e artistas.”

Por falar em shows, as apresentações do grupo começaram em 2000. Primeiro, no Brasil. Depois, os Meninos do Morumbi ganharam os palcos do mundo, especialmente os da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos. “Como todos participam da banda, sempre revezamos os jovens, para dar oportunidade a todos”, explica Pimenta. A ONG também costuma receber gente de peso. Caso do ex-presidente norte-americano George Bush, do ex-secretário de Estado dos EUA, Collin Powell, e de Charmine Neville, cantora e percussionista. “Essas visitas nos dão visibilidade, mas raramente essas pessoas fazem doações para nossa instituição. Às vezes, nos ajudam indiretamente, crescemos nossa rede e, com ela, alcançamos outros contextos de sustentabilidade”, comenta o maestro.

Embora normalmente os ingressos para as apresentações musicais do grupo não sejam cobrados, este é dos meios adotados pela ONG para captar recursos. “Fazemos muitos shows em eventos corporativos (só no ano passado foram 87) e, eventualmente, realizamos shows abertos ao público em teatros da cidade. Neste caso, cobramos ingressos”, diz Pimenta. No reverso da moeda, os garotos da banda também não são remunerados por suas apresentações. O motivo? O próprio maestro explica: “Todos aqui sabem que Meninos do Morumbi não é um programa do governo, não pertence a nenhuma empresa. Não é meu e também não é projeto social no sentido assistencialista. Pertence aos meninos.”

“E é responsabilidade de cada um aqui a continuidade do trabalho e a manutenção da instituição”, prossegue ele. “Tocar bem é 70% de trabalho duro (aulas, ensaios) e 30% de talento ou sorte. Digo a eles desde o primeiro momento de sua chegada que não podemos ficar com o estigma de grupo artístico de ‘projeto social”. Temos de ser desejados, aplaudidos e devemos receber por isso, para cuidar da sustentabilidade da entidade e melhorar, recebendo novos jovens, como sempre foi. Este entendimento cria a proatividade, refletindo posteriormente em como este jovem deve encarar outros contextos na vida.”

Apesar de ter poucos anos de vida, a Meninos do Morumbi já obteve muitas vitórias. Para Pimenta, porém, uma das conquistas mais significativas foi ver que muitas das crianças que conheceu hoje estão formadas, com família constituída e são cidadãos maravilhosos. “Perdemos alguns no caminho, mortos pelo crime, presos. Porém são poucos perto do sucesso de muitos. Estes 13 anos foram muito intensos, ganhamos diversos prêmios, fomos reconhecidos por muitas instituições no Brasil e no Exterior, recebemos visitas de personalidades. Gravamos e tocamos com muitos artistas famosos de diferentes gêneros musicais e países e fizemos viagens incríveis.”

Músico, educador, pai e às vésperas de se tornar avô, Pimenta afirma continuar sonhando com o sucesso do grupo artístico mas, mais do que isso, com o sucesso de cada jovem da ONG como ser humano e cidadão. “Entendo que peguei meu projeto de vida e coloquei todo mundo dentro. Hoje, somos um sonho coletivo que fez e faz diferença na vida de todos aqui. Embora tenha outras atividades profissionais, os Meninos do Morumbi continua sendo minha melhor obra e grande paixão, finaliza o maestro.

Atualmente, a Meninos do Morumbi atende a garotada de 6 a 17 anos, dando prioridade aos menos favorecidos. As matrículas acontecem no início de cada semestre. Como todas as atividades, cursos e programas oferecidos pela na ONG são gratuitos, existe uma fila de espera. Para fazer parte da ONG, um pré-requisito: estar na escola regular e ter boas notas (o desempenho escolar é acompanhado de perto). Depois de matriculados, os novos os integrantes têm de frequentar pelo menos três cursos na associação: canto, dança e música.

Para saber mais

http://www.meninosdomorumbi.org.br

 

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~ por Fabíola Musarra em Agosto 14, 2010.

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