Memória

Segredos para explorar todo o seu poder

A memória é ilimitada. Quanto mais é preenchida, mais informação ela pode conter. Na base disso está um mecanismo químico que a ciência está aprendendo a conhecer

Por Fabíola Musarra

E se fosse uma droga derivada alcaçuz a salvar as nossas recordações? Segundo um estudo da Universidade de Edimburgo (Escócia), a carbenoxolona melhora as capacidades mentais dos idosos, incluindo a memória que vai se deteriorando com o passar dos anos. Essa substância, na realidade, um agente derivado da raiz do alcaçuz, poderá ser útil para combater o mal de Alzheimer e talvez também para melhorar nossa performance nos exames. “As memórias são um ‘fato’ químico”, confirma Nancy Ip, diretora do Instituto de Pesquisa Biotecnológica da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong: “Recentemente, nós identificamos a proteína que contribui para a sobrevivência e para o desenvolvimento das células nervosas e que poderia oferecer recursos para desenvolver medicamentos contra doenças que afetam a memória.”

Enquanto se espera que os estudos possam conduzir a resultados mais concretos, o que podemos fazer para melhorar a nossa capacidade mental? A memória é a capacidade de adquirir (aquisição), armazenar (consolidação) e recuperar (evocar) informações disponíveis. Ela não é monolítica, mas constituída de diversas atividades e funções. Um primeira distinção a ser feita é entre a memória de curto e a de longo prazo. A primeira, que é encarregada de reter as informações por pouco tempo, localiza-se no lobo pariental inferior e no lobo frontal do cérebro, enquanto a memória de longo prazo é ligada ao hipocampo e às áreas vizinhas.

De acordo com Alan Baddelay, da universidade inglesa de York, a memória de curto prazo tem espaço limitado, podendo reter de cinco a nove unidades de informação: palavras, datas, números. Já a memória de longo prazo é ilimitada. O problema é arquivar a informação na memória de longo prazo, para recordar quando necessário. Como? “Quanto mais a pessoa souber, mais fácil será recordar”, diz Baddelay. Em suma, a memória não é um recipiente que eventualmente é preenchido, não possibilitando o ingresso de novas informações. Ao contrário, quem usa uma linguagem rica e articulada, recorda-se melhor. Da mesma forma, quem sabe vários idiomas tem mais facilidade para aprender um novo.

A memória de longo prazo, por sua vez, pode ser de diferentes tipos. Há a memória procedural (inclui procedimentos motores que permitem a execução automática de ações habituais como tocar piano, dirigir ou andar de bicicleta), a semântica (relativa ao significado das palavras) a episódica (nos permite lembrar conceitos, aspectos gerais ou descrever qualquer coisa que aconteceu no passado. Ela também é autobiográfica, pois nos possibilita lembrar de acontecimentos específicos da nossa vida); e a espaço-temporal (onde e quando aconteceram determinadas situações). Há ainda a memória prospectiva, relativa às coisas que se tem de fazer no futuro.

“Esta última é muito sujeita a interferências”, diz Maria Angela Bradimonte, do Instituto Universitário Sant’Orsola Benincasa di Napoli, na Itália. “Se devo me recordar, a uma determinada hora, de dar um telefonema e, então, fico entretida em outra atividade, é provável que eu acabe me esquecendo.” Como evitar que isso ocorra? “ Criando associações. Em vez de pensar “devo dizer isso ao Luís”, melhor repetir “quando eu vir o Luís lhe direi…” , de modo que o encontro com o rosto do amigo desencadeie a memória.

Podemos não nos lembrar de informações, tal como nos foram dadas, se a nossa mente estava em outro lugar. “Ter uma boa memória”, diz Pasquale Ciccognani, especialista em formação da sociedade Csr de Milão (Itália), “depende da capacidade de observação e associação, de estar realmente presente ‘aqui e agora’, algo que nem sempre acontece.”

Para quem está se preparando para enfrentar um exame, o vestibular ou mesmo para prestar um concurso, o ambiente de estudo é muito importante. “A primeira regra é ficar bem longe a televisão”, afirma Alberto Oliverio, docente de psicobiologia da Universidade La Sapienza de Roma, na Itália. A tevê ligada estimula a produção de endorfina, opiácio natural do cérebro, o que impede a pessoa de se concentrar totalmente na tarefa. E a música, é permitida? Depende. O importante é que o estímulo seja oposto a atividade que a pessoa estiver fazendo: se ela estiver lendo, a música tem de ser instrumental, sem ser cantada, apenas tocada, mesmo as estrangeiras.

A boa memorização implica escutar atentamente e prestar atenção durante a aula, beneficiando-se dos chamados “efeitos orais”. O que é isso? “Se uma pessoa verbaliza um conceito, isso ajuda a formar uma imagem mental que lhe permitirá se recordar melhor”, observa Rossana De Beni, docente de psicologia geral e da personalidade da Universidade de Padova, na Itália. “O efeito positivo sobre a nossa memória é devido, principalmente, ao relacionamento com a outra pessoa que está falando para nós. Um aula gravada não tem essa mesma eficácia.

Além disso, a presença de um professor permite o “cruzamento” de diversos tipos de memórias.” Por exemplo: as memórias verbal (as palavras do professor, que explica, por exemplo, como acontece a erupção de um vulcão), semântica visual (um vulcão visto de uma foto) e a autobiográfica (uma viagem que a pessoa tenha feito ao Vesúvio ou a um outro vulcão).

Anotar as informações é útil, mas elas não devem ser apenas escritas como se estivesse fazendo um ditado. O melhor método é estar equipado com um caderno grande. Parte-se do centro da folha, no qual se escreve o conceito principal da aula e se segue acompanhando a exposição do orador, identificando o tema principal do discurso e os secundários.

Uma boa memória é um modo de ser. Segundo Ciccognani, significa saber observar as coisas, inclusive as mais banais, com interesse e curiosidade, e buscar novos elementos além daqueles já conhecidos e que já tivermos experimentado. Significa manter sempre em movimento as memórias para utilizá-las como suporte para novas informações. Para não mencionar a característica mais importante de tudo: descobrir a capacidade de se divertir com o cotidiano. Mesmo aos 90 anos de idade.

 

QUANDO ESTAMOS ENVOLVIDOS, NÃO ESQUECEMOS

Em um experimento, alguns voluntários assistiram a filmes com alto potencial emocional ou neutros. Enquanto eles assistiam às películas, foram registradas suas atividades cerebrais. Nas pessoas que tinham visto sequências envolventes, a atividade da amígdala era mais intensa e estava relacionada a uma memória melhor. O fenômeno poderia ter uma função evolutiva: serviria para “fotografar” uma situação potencialmente perigosa, da qual deveríamos nos manter distantes.

Poucos se lembram do número de um quarto de hotel onde eles estavam há dez anos. a menos que ele tenha sido palco de eventos de pequenos detalhes que ficaram gravados na mente, como um fim de semana romântico ou a primeira noite de núpcias.

Não é só. Um acontecimento importante, mesmo que não nos afete de perto nem esteja relacionado diretamente com a gente, nos faz lembrar de alguns dos nossos comportamentos, naquele momento. Há aqueles que se lembram de como estavam vestidos no dia que o Brasil foi pentacampeão de futebol na Copa do Mundo da Coréia do Sul/Japão, em 2002. Ou ainda, tudo o que fizeram no 11 de setembro de 2001, o dia do atentado às Torres Gêmeas de Nova York, nos Estados Unidos.

SINTONIZE NO MELHOR CANAL

Segundo a programação neurolinguística, disciplina que estuda os processos mentais, cada um de nós usa preferencialmente um canal sensorial específico para conhecer, se comunicar e se lembrar, aprendendo por meio de imagens, som ou movimento. Os especialistas denominam esses três canais de visual, auditivo e cinestésico. Na realidade, não existe uma pessoa que utiliza apenas um destes três, mas a tendência é preferir um deles. De fato, todos os sentidos contribuem de diferentes modos para criar uma memória. O truque para manter as informações na mente está, portanto, na busca de um método de estudo que ative os três canais sensoriais. Cada um dos três canais correspondem a algumas operações (como a rotação dos olhos) que realizamos de modo automático e que nos ajudam a relembrar conceitos ou acontecimentos que nos afetam.

Canal visual: é típico de alguém que usa diagramas, sublinhando com marcadores de cores diferentes as notas de rodapé e, em geral,  tudo o que estimula a percepção visual. Normalmente são pessoas com a clássica memória fotográfica e que tendem a reconstruir a memória visualizando uma página do livro ou a uma cena que assistiu. Quando estamos buscando a “chave” que nos permite acessar as memórias visuais, tendemos a olhar para cima, com nossos olhos se movimentando à direita e à esquerda.

Canal auditivo: é característico das pessoas que recordam melhor de algo quando escutam, O método de estudo mais eficaz para elas consiste em repetir as informações em voz alta. Melhor ainda se isso for feito com um companheiro. Ou ainda, ouvir uma gravação. As memórias auditivas são invocadas utilizando como “chave de acesso” o olhar deslocado para o lado, à direita e à esquerda.

Canal cinestésico: O termo remete à memória motora e mais geral, ligada às sensações: aromas, sabor, postura. Quem utiliza este canal, precisa tomar notas enquanto estuda ou ouve o professor, como se o ato de escrever lhe possibilitasse fixar melhor os conceitos. Alguns preferem fazer pequeno rabiscos a escrever. Nem sempre, porém, os professores percebem que este é um modo de o aluno se concentrar. Muitas vezes, essas pessoas estudam deitadas no sofá ou no chão, em vez de sentadas. Temos acesso à memória cinestésica quando deslocamos o olhar para baixo, para a direita e para esquerda.

 

VOCÊ SABIA?

O cérebro humano, o lar das memórias, pesa aproximadamente de 1,3 quilo.

Algumas partes do cérebro, essenciais para a memória, são bastante vulneráveis ao envelhecimento. O hipocampo é uma delas, pois perde muitos neurônios a cada década, totalizando uma significativa perda na época em que uma pessoa estiver com 80 anos. Além disso, o próprio cérebro encolhe e se torna menos eficiente conforme se vai envelhecendo. Outras fatores podem ocorrer com o cérebro acelerando esse declínio, como a pessoa ter herdado alguns genes problemáticos, ter sido exposto a venenos ou ter bebido e fumado demais.

Lembrar de algo bom que aconteceu no dia anterior ajuda o ser humano a ser mais feliz. Isso vale desde para as recordações de pequenos acontecimentos, como ter saboreado um gostoso cafezinho, até as situações positivas em casa ou no trabalho. Essa foi uma das conclusões de uma pesquisa desenvolvida por Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra, neste ano. Segundo o estudo realizado com mais de 25 mil pessoas, outras atitudes simples, como sorrir ou recordar experiências positivas, também se mostraram úteis para a obtenção da  felicidade.

 

CÉREBRO

MILHARES DE ARQUIVOS CONECTADOS EM REDE

A fixação de memórias deixa um preciso traço bioquímico no nosso cérebro. Qualquer estímulo provoca um impulso elétrico que viaja do neurônio (a célula nervosa) para a extremidade final de sua extensão: o axônio, uma projeção da célula, longa e semelhante a um cabo, que transporta a mensagem eletroquímica (impulso nervoso ou potencial de ação) pela extensão da célula. Aqui, as moléculas são liberadas (sobretudo, o ácido glutámico) criando ponto de conexões com outros neurônios (sinapses), ativando a memória de curto prazo. Se as conexões são fixas, as memórias passam a ser de longo prazo.

A ilustração mostra o mapa das memórias no cérebro. Para construir uma memória, várias regiões são conectadas por redes de células nervosas, sendo que cada um desses grupo de sistemas tem um papel diferente na criação, no armazenamento e na lembrança dessas memórias. Quando o cérebro processa as informações normalmente, todos esses sistemas diferentes trabalham perfeitamente em conjunto para fornecer um pensamento coeso. Só para citar um exemplo, basta ver o que fazemos para memorizar um poema. Inconscientemente ativamos diversas redes neurais: as memórias verbal, visual e musical, sobretudo se o texto a ser enviado à memória for muito rítmico.

Córtex frontal

As células desta região permitem a associação de uma lembrança a um lugar e um tempo bem precisos (memória espaço-temporal).

Amígdala

Pequena estrutura em forma de amêndoa localizada na parte mais interna do cérebro. É a sede das lembranças associadas às emoções (memória emotiva).

Lobo parietal inferior

A região do cérebro que abriga memórias temporárias (memórias de curto prazo).

Lobo pré-frontal

Sede das memória associadas com a repetição de ações automáticas (memória procedural). A mais importante função associativa do lobo pré-frontal parece ser, efetivamente, integrar informações sensitivas externas e internas, pesar as conseqüências de ações futuras para efetuar o planejamento motor de acordo com as conclusões.

Lobo Frontal

É um lugar onde se concentra uma enorme variedade de importantes funções, incluindo o controle de movimentos e de comportamentos necessários à vida social, como a compreensão dos padrões éticos e morais e a capacidade de prever as consequências de uma atitude.

Lobo temporal

Está permanentemente envolvido em processos ligados à audição e à memorização. Compreende aquele tipo de memória que atingimos quando ouvimos um concerto ou descrevemos uma realidade externa a nós (memória semântica verbal). É a estrutura central responsável pelo gerenciamento da memória. Os lobos temporais estão localizados na zona por cima das orelhas, tendo como principal função processar os estímulos auditivos. Os sons se produzem quando a área auditiva é estimulada. Tal como nos lobos occipitais, é uma área de associação (área auditiva secundária) que recebe os dados e que, em interação com outras zonas do cérebro, lhes atribui um significado permitindo-nos reconhecer o que ouvimos.

Hipocampo

É uma estrutura localizada nos lobos temporais do cérebro, considerada a principal sede da memória e importante componente do sistema límbido. Além disso, é relacionado com a navegação espacial. Seu nome deriva de seu formato curvado apresentado em seções coronais do cérebro humano, se assemelhando a um cavalo-marinho (grego: hippos = cavalo, kampi = curva). Em uma linguagem mais popular, é o “guarda de trânsito” que completa as nossas memórias, em várias partes do cérebro.

O hipocampo atua em interação com a amígdala e está mais envolvido no registro e na decifração dos padrões perceptivos do que nas reações emocionais. Os pesquisadores acreditam que o hipocampo, ao lado do córtex frontal, é responsável por analisar essas diversas entradas sensoriais e decidir se vale a pena lembrar delas. Se valerem a pena, elas podem se tornar parte da memória de longo prazo.

É o centro que analisa as informações captadas pelos olhos e as interpreta mediante um intrincado processo de comparação, seleção e integração. Contribui para o armazenamento das memórias relacionadas com experiências pessoais (memória episódica).

Cerebelo

É quem permite que a gente se lembre da posição do corpo para manter o equilíbrio em determinadas situações, como caminhar ou andar de bicicleta.

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~ por Fabíola Musarra em Junho 6, 2010.

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