Salvador Dalí

“EU SOU 0 SURREALISMO”

 Síntese e antítese da Espanha, Salvador Dalí completou 100 anos em 2004. A obra do pintor – como a sua própria biografia – espelha todas as contradições, toda a genialidade e loucura do país onde ele nasceu, viveu e morreu

 Por Fabíola Musarra

Salvador Dalí é amor ou ódio à primeira vista. Para muitos, ele foi um showman que sabia promover sua imagem e ganhar muito dinheiro com ela. Na mesma proporção dos que o criticam, outros o consideram um gênio, um criador anticonvencional e controvertido que, com seu olhar espantado, rosto moreno e longos bigodes negros, convertia a si próprio em obra de arte.

Dalí era o único que não tinha dúvidas a respeito de si mesmo: “Vou ser um gênio”, confidenciava ao seu diário. “Talvez incompreendido e desprezado, mas um gênio grandioso.” Ele representava como poucos a genialidade e a loucura da Espanha. Era ao mesmo tempo síntese e antítese do país onde nasceu, morreu e passou grande parte de sua vida. Essa mesma Espanha de outros gênios, como Garcia Lorca, Picasso, Gaudí e Miró, todos seus contemporâneos.

DE COZINHEIRA A NAPOLEÃO

Salvador Dalí nasceu “as 8h45 do dia 11 de maio de 1904, no povoado de Figueres, aos pés dos Pirineus. Desde cedo, já demonstrava a sua predisposição de romper regras e, sobretudo, escandalizar. Muitos acreditam que suas incessantes atitudes provocadoras foram motivadas por ele ter recebido, no batismo, o mesmo nome de um irmão que morrera de meningite três anos antes. O fato de o menino ser obrigado a levar flores ao túmulo de alguém que tinha seu próprio nome teria criado nele uma forte instabilidade emocional. Já adulto, em conversas com pessoas mais próximas, mencionava esse seu outro “eu”, o irmão morto.

Garoto, Dalí era dado a constantes travessuras. Colocava fezes e bichos mortos nos armários da casa e encrencava com todos com quem convivia. Aos seis anos queria ser cozinheira, no feminino. Aos sete anos queria ser Napoleão. “A partir de então, minha mania de grandeza não parou de aumentar: já não quero ser senão Salvador Dalí.” Seu interesse pela pintura nasceu na infância. Inspirado nas belíssimas paisagens do norte da Catalunha e incentivado pelos livros que um tio lhe trazia de Paris (França), aprendeu, como autodidata, as técnicas e características do impressionismo.

Diante do interesse de Dalí pela pintura, seu pai, um tabelião, mandou-o estudar arte em Madri, capital da Espanha. Ele tinha então 12 anos. Pouco depois seria expulso da escola por seu comportamento excêntrico e um pedantismo sem limites. “Todas as manhãs, quando acordo, experimento um prazer supremo: o de ser Salvador Dalí”, orgulhava-se ele. O rompimento com o pai era inevitável. Não só pela sua exclusão da Escola de Madri, mas pela série de desgostos que ele lhe proporcionaria durante toda a vida.

Devido à conturbada relação com o pai, Dalí segue para Paris. Lá conhece André Breton, líder do surrealismo. Breton obriga seus seguidores a renegar seu passado, família e amizades. Dalí obedece e faz um quadro em forma de um sagrado coração com a inscrição “Eu cuspo em minha mãe”. Apesar da rebelião contra as figuras familiares, ele não consegue renegar a brisa mediterrânea do lugar que tantas vezes o abrigou em sua infância e juventude. Atraído pela luz e pelo panorama da baía e dos montes de oliva, ele compra uma pequena cabana de pescadores em Port Lligat (Espanha).

Gênio de múltiplas facetas e possuidor de uma curiosidade insaciável, antes de se tornar o maior pintor surrealista, Dalí explorou todas as tendências de arte de sua época: cubismo, impressionismo, futurismo e dadaísmo. Em todas produziu bons trabalhos, mas eles se tornam menores diante de sua obra surrealista.

Aconselhado por Joan Miró, regressa a Paris e ingressa no grupo dos surrealistas. O contato com esses artistas mudaria definitivamente sua vida. Por intermédio deles, conhece a russa Gala, sua eterna paixão. Foi nas férias do verão de 1929, quando o poeta surrealista Paul Éluard e sua então esposa Gala o visitaram em seu refúgio em Port Lligat.

Gala e Dalí se apaixonaram à primeira vista. Dalí rumou para Paris com o firme propósito de raptá-la. Mas sequer foi preciso. Dez anos mais velha que o pintor, Gala se tornaria sua mulher e sua companheira por toda a vida. Eles permaneceram ligados até a morte dela aos 88 anos, em Port Lligat, em 1982.

Dalí nunca aceitou limites para a sua criatividade. Defendia o conceito renascentista de artista global, à moda de Leonardo Da Vinci e Michelangelo, de criador sem limites e sem barreiras. Ingressou em todas as áreas artísticas. Trabalhou na moda com a estilista Elsa Schiaparelli. Foi amigo do cineasta Luis Buñuel e do poeta Frederico Garcia Lorca.

Recebeu influência de Miró e posteriormente se indispôs com os surrealistas, os quais passou a desconsiderar: “A única diferença entre os surrealistas e eu é que eu sou surrealista.” Também costumava afirmar que a única diferença existente entre um louco e ele era que ele não era louco.

O artista escreve sua autobiografia Vida Secreta de Salvador Dalí com apenas 37 anos de idade, no começo da década de 1940. “Normalmente os escritores começam a escrever suas memórias depois de viver sua vida, mas eu, com o meu vício de fazer tudo diferente dos outros, achei que era mais inteligente começar escrevendo minhas memórias e vivê-las depois”, afirmava. Também na literatura o mestre do surrealismo se destacou. Escreveu, sobretudo, sobre si mesmo, produzindo obras provocativas e surpreendentes. Fez conferências em grandes centros culturais, teatros, museus e universidades.

O CASO COM GARCIA LORCA

Ainda em 1940, fugindo da Segunda Guerra Mundial, Gala e Dalí foram morar em Nova York (EUA), onde permaneceram por oito anos. Nesse período, o artista escreveu o roteiro do filme Spellbound com Alfred Hitchcock e ajudou Walt Disney na criação do desenho animado Destino. Dalí fez de si mesmo um personagem excêntrico. E tinha consciência disso: “Se eu não falasse esses disparates e não fizesse esses espetáculos, interessaria muito menos”, declarou em 1970, ao se referir a situações como a ocorrida em 1936 quando, na Exposição Internacionalista de Londres (Inglaterra), se fantasiou de escafandrista para proferir uma palestra.

Somente voltou para a Espanha no final da década de 1940. Mais uma vez, mudou seu traçado e se inspirou em artistas como Vermeer e Leonardo da Vinci, entre outros. Dalí revolucionou, escandalizou, provocou tumulto em todos os lugares por onde andou. Escandalizar, por sinal, lhe proporcionava enorme prazer. E como ele se empenhava nisso!

Ficou preso durante 21 dias, mas dizia ter passado três meses na cadeia. Saiu de lá pregando que apenas coisas fantásticas poderiam ser criadas na prisão e que essa foi para ele uma época de muito prazer. Era só mais um jeito de agredir, pois possivelmente não tinha gostado nem um pouco da experiência. Também afirmava que o amigo Garcia Lorca fora apaixonado por ele e que em diversas ocasiões tentava sodomizá-lo, mas ele não havia deixado. Há quem afirme que os dois foram amantes, mas isso jamais foi provado.

Embora criasse em seus quadros e esculturas imagens absurdas e alucinadas e, por conta delas, fosse acusado de consumir drogas, nunca foi constatado que Dalí tenha se entregado ao vício. “Não consumo drogas, eu sou a droga.” Em 1982, sofreu um duro golpe com a morte de Gala. Parou então de pintar e quase não apareceu mais em público.

Irônico, intrigante, imprevisível, polêmico, provocador e revolucionário. Dalí foi, é e será um dos mais importantes pintores, escritores e escultores da arte de 1989, quando um ataque cardíaco o silenciou definitivamente. Sua vida terminou onde havia começado, em Figueres, sua cidade natal, onde quis ser enterrado e onde permanecem os restos daquele que foi um dos maiores gênios da pintura do século 20.

NA TERRA DE DALÍ

Dalí passou parte de sua vida na Espanha, mais precisamente na Catalunha, aos pés dos Pirineus e junto à fronteira da França. Por conta disso, toda essa região foi apelidada de “Dalilândia”. Quem deseja conhecer mais de perto os lugares onde o gênio do surrealismo viveu, deve obrigatoriamente incluir em seu roteiro as cidades de Figueres, Púbol e Cadaquès, com fácil acesso de trem a partir de Barcelona, a capital catalã.

Em Figueres, a cidade natal do artista, o prédio que abrigou o Teatro Rainha Esther, destruído por um incêndio, se transformou em Teatro Museu Dalí. Inaugurado em 1974, reúne vasta coleção que descreve toda a trajetória artística de Dalí, desde os seus primeiros trabalhos surrealistas até as obras realizadas em seus últimos anos de vida. O museu em Figueres é, depois do Prado, em Madri, o mais visitado da Espanha. Anualmente, recebe mais de um milhão de visitantes. Dalí está enterrado em seu subsolo.

No antigo castelo medieval de Púbol, que foi residência da esposa do pintor nos anos 70 e onde Dalí foi morar após a morte dela, no início dos anos 80, funciona a Casa Museu Castelo Gala Dalí. Nela estão expostas pinturas e desenhos que o artista presenteou a esposa, uma coleção de vestidos de alta costura de Gala, o mobiliário e os numerosos objetos com os quais o casal decorou o castelo.

A visita a Port Lligat, em Cadaquès, também é imprescindível para quem é fã do mestre surrealista, especialmente para aqueles que querem conhecer melhor o seu universo. Situada mais ao leste da Espanha, essa pequenina aldeia de pescadores ainda conserva o charme das paredes brancas e das flores que a transformaram no passado em um ponto de encontro internacional de artistas.

Na baía de Port Lligat fica a casa onde o catalão passou grande parte de sua infância e juventude. Desde que foi aberta ao público em 1997, é chamada de Casa Museu Salvador Dalí.

 

VOCÊ SABIA?

A OBRA MAIS CARA – “Minha Mulher Nua Olhando Seu Próprio Corpo”, a obra mais cara de Dalí, foi vendida em 2000, em um leilão londrino por US$ 5,2 milhões. Menos de 5% da cotação máxima obtida por um Picasso poucos dias antes.

NO BRASIL  Em terras tupiniquins, quem quiser ver obras do artista, a alternativa é visitar museus como o de Arte de São Paulo (Masp), cujo acervo reúne várias obras daquele que é tido como um ícone da arte de vanguarda do século 20.

PARA SABER MAIS

www.dali2004.org

www.salvador-dali.org

                                                                                                                                         

~ por Fabíola Musarra em Maio 24, 2010.

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