Mont Saint-Michel

Passeio de fé pela Idade Média

Situado entre a Normandia e a Bretanha, bem no noroeste da França, o Mont Saint-Michel conserva uma das mais deslumbrantes edificações religiosas da Idade Média: a abadia gótica que tinha no escritor Victor Hugo um fervoroso admirador

 Por Fabíola Musarra

Quem já esteve no santuário de Aparecida do Norte, de Fátima ou no Vaticano se lembra bem a infinidade de devotos que ali se aglomera. O Mont Saint-Michel não é uma exceção. A cada ano, cerca de três milhões de turistas visitam a charmosa aldeia medieval da França. Não é para menos. Inserida no seleto rol da Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade em 1979, a cidadezinha é atualmente um dos destinos religiosos mais concorridos do mundo.

Possuidora de uma privilegiada beleza, a pequenina aldeia encanta pelas suas casas, ruelas e construções em pedras, características da arquitetura local, quase todas elas erguidas na Idade Média. Mas é no topo desta ilha rochosa que se encontra o seu maior tesouro: o mosteiro e a abadia gótica dedicados a São Miguel Arcanjo, cujo primeiro templo foi erguido em 16 de outubro de 708.

Bem antes disso, a ilha montanhosa onde se encontra o Mont Saint-Michel e toda a região ao seu redor já eram considerados solo sagrado pelos antigos celtas. Inúmeros (e grandiosos) dolmens e menires de pedra espalhados pelo território são testemunhas dos tempos pagãos. Por volta do século 8, o cristianismo ali se instalou, com a construção de uma cripta de blocos sobrepostos. Três séculos depois, o mosteiro começou a ser construído em uma elevação de 80 metros de rocha, um trabalho que demorou cerca de meio milênio para ser totalmente concluído.

O incessante vaivém de períodos de auge e glórias intercalados por crises, incêndios, guerras, mortes, destruições e reconstruções marcam a trajetória do Mont de Saint-Michel. E, apesar de todos esses temperamentais caprichos do destino, a cidadezinha medieval vem resistindo ao longo dos séculos, assim como as ruínas da primeira capela dedicada ao arcanjo e o complexo arquitetônico de edificações que hoje integram o seu mosteiro, em uma história que ainda está sendo escrita.

 CRENÇA MEDIEVAL

Sua origem remonta à Idade Média, quando o culto a São Miguel começou a se difundir pela Europa. Naquela época acreditava-se que os lugares mais altos como os topos das montanhas lhe pertenciam. Mas o principal protagonista deste enredo é o bispo de Avranges, uma localidade situada nos arredores do Mont de Saint-Michel, na Normandia. Motivado por uma visão do arcanjo, o religioso ordenou a construção do primeiro templo dedicado a ele. Vale notar que a mais antiga construção do monte, a Igreja de Notre-Dame-sur-Terre, conserva uma parede intacta do que pode ter sido a rústica capela erguida no início do século 8.

Concluída a obra, 12 monges se instalaram na cripta. Esse fato foi o suficiente para que lendas e histórias imprimissem uma face sagrada ao lugar e essa fama ganhasse as ruas do mundo. Em 966, a pedido do duque da Normandia, os beneditinos passaram a viver no local. No ano 1000, eles construíram uma igreja pré-romana.

No século 11, grãos-senhores da Bretanha, Normandia, Itália e Inglaterra investiram financeiramente na propriedade, cuja área foi ampliada significativamente. Inicialmente, foi fundada uma abadia no estilo romano no ápice da pedra. A partir daí foram acrescentadas as construções do monastério.

Essa prosperidade veio acompanhada por um período de glórias: no mosteiro, os monges passaram a estudar e a copiar manuscritos de literatura, ciências, filosofia, história e outras áreas de conhecimento, lapidando aquilo que viria a ser outra jóia da humanidade: as iluminuras. Entre as cópias dos religiosos, destaque para os tratados do filósofo grego Aristóteles.

Esse sopro de riqueza e expansão colonial perdurou até o século 18. Os dias de glória do lugar, no entanto, sempre foram intercalados por catástrofes. Em 922, um incêndio praticamente destruiu o povoado medieval, dando início a uma sucessão de catástrofes e tragédias. Em 1103, um grande pedaço da nave central da abadia beneditina desabou. Em 1203, outro incêndio atingiu o mosteiro. Ele teve de ser totalmente reconstruído, mas desta vez seu visual foi inspirado no estilo arquitetônico gótico.

Em 1318, alguns peregrinos morreram pisoteados pela multidão, outros se afogaram e mais de uma dúzia deles desapareceu nas areias movediças que ainda hoje se formam quando a maré baixa e permite a travessia a pé do continente para a ilha. Durante a Guerra dos Cem Anos entre a França e a Inglaterra (1337 a 1453), o monastério ganhou ares de fortaleza, mas sem nunca perder seu caráter religioso.

Possivelmente neste período, São Miguel, o arcanjo que ajudou Jesus a vencer as tentações de satanás no deserto, e que com suas armas sempre derrota o demônio (dizem, inclusive, que a batalha final entre ambos será travada no Mont Saint-Michel), deve ter interferido no destino do santuário. Afinal, os ingleses conquistaram todas aquelas terras, mas jamais conseguiram ultrapassar as suas muralhas. Mais tarde, durante a Revolução Francesa, a abadia foi transformada em uma prisão.

  

ARMADILHAS TRAIÇOEIRAS

Crenças à parte, o fato é que se o isolamento do Mont Saint-Michel – fica ilhado quando a maré sobe e é rodeado por bancos de areia movediça nas marés baixas – protegeu o mosteiro durante a Guerra dos Cem Anos, ele também provocou a morte de milhares de peregrinos na Idade Medieval.

Para chegar ao templo, eles tinham de percorrer uma perigosa trajetória: quando o mar recuava, partiam do continente e atravessavam a pé mais de uma dezena de quilômetros de areal traiçoeiro para chegar ao monastério. No caminho, a maré (uma das mais altas do mundo) subia rapidamente atingindo até 15 metros. Assim, muitos deles eram pegos de surpresa pela água do mar ou pelas armadilhas da areia movediça.

Esse fenômeno natural ainda agora pode ser observado na ilha. Duas vezes ao dia, a maré sobe a uma velocidade rapidíssima, transformando a cidadela numa ilha. Na maré baixa é possível caminhar pelo imenso areal existente ao redor do monte, especialmente próximo às muralhas da cidade, local que não oferece maior perigo.

No entanto, se você pretende ir mais longe – a distância entre o mosteiro e a beira-mar é de aproximadamente 18 quilômetros –, o ideal é calçar botas de cano longo para não ficar com os pés totalmente encharcados, já que eles enterram fundo naquelas areias. Para não repetir os sustos e dramas vividos pelos peregrinos medievais, você também pode contratar guias locais para as caminhadas mais longas, jeito mais seguro de evitar os traiçoeiros bancos de areia movediça.

De qualquer modo, é sempre bom consultar o horário da próxima maré, informação que é atualizada diariamente e fica fixada de modo bem visível na entrada principal do Mont de Saint-Michel. Muita gente já foi surpreendida quando no passeava no areal pela velocidade da maré subindo e… Bom, dá para imaginar o trágico desfecho da inocente aventura.

 ESCALADA À VISTA  

Voltando ao acesso ao Mont Saint-Michel, atualmente, ao contrário das difíceis travessias dos velhos tempos, os fiéis não têm mais de colocar a sua vida em risco para ir a pé pedir a proteção de São Miguel em seu santuário: desde o século 19, um dique serve como ponte de ligação entre a ilha rochosa e o continente. Esse dique é, por sinal, a passarela por onde desfilam os cerca de três milhões de turistas que invadem a aldeia medieval todos os anos.

Mas se agora os tempos são outros, a dificuldade para chegar à porta de entrada da abadia de Saint-Michel ainda é grande. Para ir até lá, é necessário munir-se de coragem, respirar bem fundo, encher os pulmões de ar, preparar as pernas e começar a subir a Grand Rue, a principal via da cidadezinha.

Em seguida, galgar uma íngreme e sinuosa escadaria, numa escalada que parece nunca chegar ao fim. Além do fôlego, é preciso munir-se ainda de uma boa dose de paciência para disputar o estreito espaço da rua medieval com as centenas de turistas que ali parecem brotar e se multiplicar.

Não é para menos. É neste percurso que, aqui e ali, salpicam lojas de suvenires, restaurantes e barzinhos, paradas obrigatórias para quem deseja recuperar um pouco de suas forças. Ainda nesta efervescente rua, há um museu contando a história da aldeia e dos personagens ligados à sua construção.

Em toda a escalada, os diferentes idiomas que por ali transitam se confundem e o burburinho parece aumentar, conferindo um colorido especial ao trajeto. De certo modo, a Grand Rue assemelha-se a uma gigantesca feira internacional, onde todos os povos desfrutam (ou será disputam?) a imensa quantidade de objetos e lembrancinhas oferecidos pelos comerciantes locais.

Mas é quando se chega lá no alto, às portas da abadia gótica de Saint-Michel, conhecida também como La Merveille (a maravilha) pela indescritível beleza de sua construção, que se descortina um pitoresco espetáculo: lá de cima pode-se ver um oceano de pessoas. Despejadas pelas dezenas de ônibus que diariamente ali chegam, elas lá embaixo, no estacionamento, aguardam a sua vez para visitar o santuário.

Um lembrete: em Saint-Michel, quem deseja apreciar o lugar e suas construções medievais com um pouco mais de calma e de silêncio deve aguardar a chegada da noite, quando apenas os moradores e turistas que ali se hospedam saem às ruas para passear.

Como nem sempre isso é possível (normalmente quando se adquire um tour o tempo é bem corrido), é melhor não perder a oportunidade e começar logo a sua visita à abadia. Num dia nem tão distante do calendário, essa indescritível maravilha do gótico do século 12, foi brindada com um elogio do escritor Victor Hugo.

 O CÉU NA TERRA

Ponto alto da peregrinação, a catedral situada no topo do monte merece mesmo cada centímetro do trajeto percorrido para se chegar até ela. Seu labirinto interior abriga cinco séculos de intervenções arquitetônicas, do romântico ao gótico. Você pode optar por fazer uma visita guiada (é oferecida em diferentes idiomas) ou explorar o seu interior por conta própria, descobrindo aos poucos os corredores, os salões, os portais, as passagens, as esculturas e toda a riqueza de detalhes de seus ambientes interiores.  

Independentemente de sua opção, após entrar na igreja, prepare-se novamente: uma grande escadaria, iniciada na Sala da Guarda, o espera. Ela te conduzirá à parte superior da edificação. Também é aí, a quase 80 metros de altura, que você vai conhecer um dos mais deslumbrantes cartões-postais da pequenina aldeia medieval: o claustro.

Totalmente cercado por colunas e arcos góticos, esse fantástico jardim suspenso representa o céu na Terra. Era nele que os monges passavam muitas horas de seus dias em prece e deambulando. Muitos peregrinos hoje ali também fazem suas orações. Aproveitam a paz que impera no local enquanto os seus pedidos fluem pelas frestas da vista panorâmica de quase infinito das areias e do mar, da baía do Rio Couesnon que se estende ao longe.

Passado esse momento mágico de contemplação, retorne à realidade (se é que lá dentro isso é possível) e continue explorando o complexo arquitetônico do Mont Saint-Michel. Afinal, não é sempre que se tem a chance de caminhar por um lugar que é considerado um dos mais valiosos tesouros do mundo.

Em seu interior, o misto de aura mística impera. Ele mistura-se e confunde-se com o multicolorido tumulto dos aglomerados de pessoas. O silêncio intercala-se com o burburinho das multidões. O sagrado, com o profano. A religiosidade reveza-se com as curiosidades. Enfim, passado e presente… Tudo se mescla e se funde, tornando o Mont Saint-Michel em um destino único.

E nem mesmo o arcanjo São Miguel, que lá do alto vela a humanidade, em pose dourada sobre a flecha da catedral, escapa das artimanhas do destino: ele mesmo, sem outra ameaça do céu, hoje exerce naquele pequenino pedaço de terra, a função de pára-raios. Apesar disso, os fundamentos do mito e o campo em que o imaginário medieval lavrou e semeou sua herança ali estão intactos, entranhados nas pedras, impregnados no ar, na quietude noturna que pacifica as suas vielas desertas, num mistério que você apenas conseguirá desvendar sem a pressa contemporânea.

 SERVIÇO

Localização: situado ao noroeste da França e distante cerca de 130 quilômetros da capital Paris, o Mont Saint-Michel pertence a duas regiões francesas, a Bretanha e a Normandia, que administrativamente vivem disputando a posse do lugar.

Onde ficar: apesar da original beleza da baía, hospedar-se no Mont Saint-Michel é obviamente mais caro. Devido o número limitado de hotéis, é indispensável fazer a reserva com antecedência, sobretudo nas altas temporadas. Já nas cidadezinhas próximas, é mais fácil conseguir um lugar para ficar. A oferta é bastante diversificada, com opções para todos os gostos e bolsos, de campings e pousadas a sofisticados hotéis.

Junto à baía, na estrada para Cancale, antigos solares dos séculos 17 e 18 recebem hóspedes. Também nas proximidades do Mont Saint-Michel, as cidades de Roz-Sur-Couesnon, Saint-Marcan, Beauvoir e Pontorsan oferecem diversas opções de hospedagem.

O que fazer: o Museu Municipal guarda preciosa documentação sobre livros e pergaminhos medievais, esculturas e ourivesaria, além de diaporamas sobre a povoação. O Archeoscope encena um espetáculo multimídia em torno das lendas e histórias que envolvem o Mont Saint-Michel.

Nas imediações, há localidades que merecem ser conhecidas. Dinan e seu castelo com uma esplêndida vista sobre o burgo medieval, Dol-de-Bretagne e sua majestosa catedral, Saint Malo, Fougères e Vitré são apenas algumas delas.

~ por Fabíola Musarra em Maio 15, 2010.

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