Los Angeles de A a Z

Por Marcelo Musarra – Publicado em 2003 – Este texto é do meu irmão, a quem considero um dos maiores talentos que conheci (e não é porque é meu irmão, não). Continua atual. E vale a pena ser lido!  

É fácil ser brasileiro em qualquer lugar do mundo. Se o que diferencia o homem dos outros animais é a  capacidade adaptativa, o que difere o brasileiro dos outros povos é a surpreendente capacidade de virar o jogo a seu favor.  Em Los Angeles todo mundo é muito esperto e durão. Esse miniguia é um caminho das pedras para você não ficar marcando enquanto a cidade te atropela.

Atores & Atrizes – Você está em Hollywood, onde todo mundo é, foi ou será ator ou atriz. Ok, todos nós somos atores, mas aqui a coisa é séria. Uma garçonete (bartender) hoje pode ser Oscar amanhã. Ela nunca vai dizer que é bartender. Pois será sempre “uma atriz que está esperando a resposta de um teste em Hollywood”. E pode ser verdade. Michelle Pfeiffer já trabalhou em supermercado.

Piadinha sobre o tema: O que você faz?/Sou atriz./É mesmo? Em qual restaurante?
 

Alleys – Toda cidade é composta por ruas e avenidas. Los Angeles tem também boulevards, que são quilométricos, e alleys, que são métricos. Como os blocos são imensos, no meio dos quarteirões, quase que imperceptivelmente, lá estão eles: os alleys. Passagens que parecem entrada de uma garagem, mas que na verdade são vielas que cruzam de uma rua para outra. Tem de se ligar. Caso contrário, você vai gastar sola do pisante e tempo inútil dando a volta no quarteirão, quando tudo o que precisa é achar um alley para sair do outro lado do bloco.

Basquete – Ao lado do baseball e do football, o basquete é o esporte nacional (não confundir football com o nosso futebol, que nos USA se chama soccer e no qual os caras são grossos para caramba). Mas no basquete os gringos têm o dom. Se você está sem grana e gosta do esporte, tem umas quadras em Venice Beach onde você pode curtir o pessoal jogando. É amador tipo pro. É um deleite ver o swing e a malícia da rapaziada.

Bebidas – Se você é adepto a tomar uma cervejinha na praia, fique no Brasil. A bebida é terminantemente proibida em locais públicos. Dá multa e apreensão. Pior que Nova York, onde quase tudo bem se a garrafa estiver dentro de um saquinho opaco (brown bag). Na Califa, no way. As lojas de converniência têm Lei Seca após às 10 da noite. Portanto, precavenha-se fazendo um estoque em casa. (Você vai entender melhor quando chegar no item Clubs).
 

Bicicleta – Tá aí uma coisa que vale a pena fazer: alugar uma bike (tipo US$ 5 a hora). Tem uma ciclovia que sai de Santa Monica e vai até Marina Del Rey tangenciando a areia da praia. Altamente seguro e saudável. Você agita o corpinho, vê um monte de esportistas heavy-users (algumas pessoas são deliciosas) sempre tendo o mar como cenário. Quase sempre está sol. Portanto, não esqueça o filtro solar. Venta muito e isso engana. Sem filtro solar, você pode acabar torrado(a) na melhor hipótese. Na pior, é melhor nem pensar.

 

Blondies – Blondies, blondies, blondies! Farto arsenal de  blondies. Elas/eles estão em todo lugar. Mas se liga: existem muitas loiras falsas. Às vezes no cabelo, às vezes nas intenções. De longe são maravilhosas. Prestando mais atenção você percebe que quase tudo não passa de um bom figurino e um bom make-up. Já os “minos” não têm essa de pintar o cabelo (pelo menos de loiro. Mas pode ser verde, roxo ou laranja). Se o figura é loiro, das duas uma: ou é verdadeiro ou queimado de sol. Eles se dividem basicamente em duas categorias: a rapaziada do surfe ou os WASPs (brancos, anglo-saxões protestantes) da linha nerd. A escolha é da freguesa.
 

Bartenders – Prepare sua paciência: como já disse, ninguém aqui é garçom. Todos são potenciais profissionais brilhantes, sejam atores, atores ou atores. Portanto, dose extra de Jó na alma. Eles vão te ignorar e até te esnobar. Nos pubs/clubs uma “pint” (copão de cerveja que pronuncia-se paint) custa em média US$ 4,25. Se você não der pelo menos US$ 50 cents de gorjeta, terá automaticamente se transformado no Homem Invisível. Eu ainda acho que garçom bom é aquele velhinho de luva branca que vive disso e gosta do que faz.

 

Cigarro – Você gosta de fumar um cigarrinho enquanto bebe? Se deu mal: só pode fumar em lugar aberto e só pode beber em lugar fechado. Ou seja, os dois juntos só em casa ou no quarto do hotel. Alguns bares têm pátios, mas são raríssimos. The Pink é um deles. Fica na Ocean Drive, Venice. Agora, por incrível que pareça, existem lugares fechados para quem quer fumar um charuto de proporções Davidoffnianas. Mas também não vende bebida.

Clubs – Existem ótimos lugares pra dançar em LA. Sete dias por semana. São lugares aonde as pessoas vão para serem felizes. Portanto, esqueça a carranca em casa e ria muito! Alto de preferência. Você pode até não estar se sentindo feliz, mas deve estar aparentando ser  “exciting”. Quanto mais “exciting”, mais chances você tem de sair do anonimato. (Não sei se isso é bom ou não). Ah, lembre-se: tudo fecha às duas de la mañana. Depois disso, pra casa negão(guinha). Portanto, fique atento aos gritos de “Last round!” ou “Last drink!”. Eles acontecem por volta das 1h30. É sua ultima chance de beber qualquer substância alcoólica naquela noite.  A partir das duas, você não compra bebida em lugar nenhum. Daí a importância de ter um estoque em casa, caso tenha pintado um broto e você queira que a noite vá um pouco mais longe. Em tempo: quando somos todos “varridos” pra fora do club, fica uma moçada na porta e aí você pode pegar uma dica dum after hours onde a “rapeize” do ecstasy fica bebendo…água!

 
Comida – Na Califórnia come-se bem em todos os sentidos. Existe uma enorme variedade de restaurantes com os sabores mais diversos das etnias mais exóticas. O Oriente é logo ali. Então, restaurante thai, china e japs é o que não falta. E o México é aqui mesmo. Provavelmente, a melhor comida mexicana se faz em LA, pelo mesmo motivo que Sampa tem pizzas melhores do que a Itália. Atenção ao custo/benefício. Existem restaurantes que têm boa comida. Outros têm bom marketing. Outros têm ambos. Simplificando: dá para comer bem por US$ 10 ou mal US$ 50. As dicas dos jornais costumam ser sérias e confiáveis. Se entrar em alguma roubada, ria. Uma viagem é sempre a procura de aventuras. E ninguém descobre a América sem passar por tempestades e calmarias.

Empatia – Quem está feliz é sempre simpático. O inverso também é válido. Em qualquer lugar do mundo. Como no geral todo mundo é feliz na Califórnia, sorria sempre. Gente que você nunca viu vai te cumprimentar e tudo bem. Puxar assunto com um estranho é normal. Mas você está numa cidade grande. O que significa gente estressada. Daí a existência de muita arrogância. Se você está a negócios, é bom levar um pouco de arrogância na bagagem. Se você está a passeio, é bom levar também. Mas esqueça os carrancudos e smile! Como diria Bob McFerrin, “Don’t worry, be happy”. Ou, se preferir, como digo eu mesmo, “Don’t marry, be hippie”.

Endereços – Apesar de ser extremamente planejada, LA é uma metrópole com quase cinco milhões de habitantes. Quer dizer que dá para se perder na boa. As referências são o mar a Oeste e as colinas de Beverly ao Norte. Como a metrópole é formada por várias cidades que acabaram se emendando, você muda de uma cidade para outra como se estivesse mudando de bairro. Os boulevards são imensos. E as freeways mais ainda. A Fwy (abreviatura de freeway) 10 começa no Oceano Pacífico, em Santa Monica, e termina no Oceano Atlântico. Por isso, ao procurar um endereço, fique atento aos complementos.

O endereço é 11.250, Washington Boulevard, East, por exemplo. Pela lógica você pegaria o Washington Boulevard perto da praia e seguiria em sentido da numeração crescente até chegar ao número desejado. Ledo engano. Ao chegar na altura do 11.250, a numeração volta para zero e aí você não entende mais nada. Simples: esse endereço fica do lado Leste (Washington Boulevard, East) da cidade, depois da Highway 5. A melhor coisa a fazer se o lugar que você vai tem telefone é pedir uma referência de qual é a transversal mais próxima. Você pode perder alguns minutos no fone, mas não vai perder horas rodando de carro. Ainda mais porque, graças à herança inglesa, os norte-americanos adotam medidas estranhas não decimais como galões, milhas etc. O tal do número 11.250 não quer dizer que está a onze mil metros, e sim, a 11,25 milhas. Portanto, a quase 17 quilômetros.

Estilo – Los Angeles não tem espaço para pessoas sem estilo. Como ninguém te conhece, é um ótimo lugar para exercitar suas fantasias. Até sexuais se quiser. (Mas não estamos falando disso). Portando, invente um(ns) personagem(ns), faça estilo e go ahead! Tem gente que se entusiasma com isso e acaba pintando o cabelo com cores extravagantes ou fazendo cortes radicais. É divertido, mas tem gente que depois se arrependeu por dois meses. Ou dez, dependendo do absurdo a que se expôs.

Estacionamento – LA está na região da falha de Santander. O que isso tem a ver com estacionamento? Tudo. Por estarem suscetíveis a terremotos, os prédios têm de ser baixos (as exceções estão em Downtown, vulgo centrão). Isso faz com que a cidade se espalhe por uma grande área territorial. O que faz com que tudo fique muito longe. O que faz com que todo mundo precise de carro. Daí, a cidade tem mais carro que pessoas. Apesar disso, até que é fácil andar de carro em LA. O difícil é estacionar. A placa que mais se vê é “NO PARKING”. E é bom respeitar porque realmente eles te “Tow Away” (guincham). A tolerância é zero e uma marcada pode custar US$ 300. Os “Traffic Officers”, equivalentes aos nossos marronzinhos e moças da Zona Azul, são implacáveis. E pior: motorizados, o que lhes dá maior agilidade e eficiência na hora de multar. Então, aqui vão alguns truques para você poder estacionar sem enlouquecer. Ou enlouquecendo menos.

– Se você vai ficar no lugar só por alguns minutos: a maioria dos estabelecimentos comerciais tem estacionamento próprio. Na frente, como da lojas de conveniência que você já conhece, ou atrás e você entra por uma ruela (tipo alley). Tem de ficar esperto porque nem sempre é visível. Então, se você vai ficar só um pouquinho, seja cara-de-pau. Estacione num desses lugares, compre um chicletinho, peça uma informação e saia como quem vai para o carro e vá cuidar do que você tem a fazer. Volte rápido para não dançar e se alguém encanar invente uma desculpa. Tipo diga, “I’m sorry, I needed to make an urgent phone call” (Desculpe, eu precisava telefonar urgente) ou “Excuse me but I had to go to a restroom” (Desculpe, mas tinha de ir ao banheiro).

– Se você vai demorar até duas horas: um lugar maneiro para ficar, ver, ser visto e gastar dólares é Santa Monica. A 3rd  Street, conhecida como Promenade é um shopping ao ar livre com diversas atrações e muitos parquímetros. Assim, todas as suas moedas vão ser consumidas rapidamente. Muitos deles têm um limite de tempo que você pode estacionar. O tempo máximo é de uma hora. Leia as mensagens nos postes de rua ou nos próprios parquímetros antes de estacionar definitivamente. Seja pontual. Se o tempo vencer, você também ganha: uma multa. Felizmente na região da Promenade existem estacionamentos públicos. O da 2nd Street, por exemplo, libera as duas primeiras horas graciosamente das 8 às 6 da tarde. Depois, cobra US$ 2 pela terceira hora (as duas primeiras são grátis, lembra?) e US$1 por hora a mais.

– Se você for ficar a noite toda: digamos então que você está a fim de desencanar do carro às 6 da tarde e só vai precisar dele no dia seguinte, às dez da manhã. Pelas contas acima, o estacionamento não vai sair menos de US$ 17. Por outro lado, a perda do tíquete implica em pagar US$ 7. Percebeu qual é o lance?

Freeway – Freeway, ao pé da letra, quer dizer “caminho livre”. Não confundir com caminho louco só porque elas se parecem com a Rodovia dos Bandeirantes melhorada. Por isso, quando entrar na Freeway, sente o pé, mas respeite absolutamente a sinalização. O limite de velocidade é 65 mph. Em alguns trechos é 75 mph, o que equivale respectivamente a uns 110 e 130 km/h. Sempre dá para dar uma miguelada de até 10 mph há mais. Já as outras sinalizações devem ser totalmente respeitadas. Principalmente nos dias de chuva. Como lá é deserto, o estio é longo. Vale dizer que basta cair uma garoazinha e todos os motoristas se transformam em exímios barbeiros.

Grana – Se você se acha rico, prepare-se para ter uma decepção. A menos que carregue sobrenomes de quatrocentões ou superemergentes, para os padrões daqui você é apenas remediado. Feliz por ter comprado uma BMW Z3? Dê uma voltinha em qualquer bairro classe média e veja a quantidade de Mercedes, Audis e afins estacionados em garagens de casas de reles mortais. Agora, se você quer apenas entrar em depressão com sua miserê, pegue a Sunset Boulevard e entre nos condomínios com nomes de ruas em italiano (Monaco, Firenze etc.). Agora, se você quer se suicidar entre em Bel Air. Em tempo: o metro quadrado californiano custa, em dólar, o dobro do metro quadrado mais caro do Brasil (calma, não precisa chorar).

Getty Center – Já que falamos em grana, que tal economizar um pouquinho? Passeio bacana e “de grátis” é o Getty Center. Começa pela arquitetura, que é do Richard Meyer. Linda, simples, branquinha. E continua pela obra faraônica: cinco blocos imensos cada um especializado em um segmento da arte (pintura, fotografia, escultura, gravura e digital). Neste último, por exemplo, dá para entrar gratuitamente na web e enviar cartões postais pros amigos. Do Getty Center a vista de LA é super. Agora a dica boa mesmo é: não vá de carro. Têm ônibus que para na porta. Caso contrário, você tem de pagar estacionamento. E aí o “de grátis” já era.

Highway 1 – De todas as Hwys, essa talvez seja a mais famosa. Ela sai de Santa Mônica e vai até São Francisco. Dizem que é o maior visual, altas praias etc, etc. Mas se você já viajou pela Rio-Santos, pode acreditar: a melhor maneira de ir de LA para SF de carro é ir ao aeroporto e pegar um avião. É mais rápido, mais prático e são poucos lugares que realmente valem a pena conhecer. Tipo hora e meia em dia de semana (sem trânsito) de LA tem Santa Barbara. Nos fins de semana pode demorar até quatro horas. É realmente muito legal. Ainda sobraram traços das missões espanholas que resistiram ao egocentrismo yankee.

– Nos outros picos mais para cima, o visual é mais ou menos, e a galera, careta para caramba.  É onde o norte-americano se revela. Existem algumas outras cidades bonitinhas. Morro Bay, por exemplo, tem uma geografia maravilhosa. O que destrói é a PN&G, (Eletropaulo/Light local). É uma construção horrível, que estaria bem aclimatada na região de Cubatão. Mas onde está é tão grotesco quanto a Cosipa em plena Serra do Mar.

– Monterey é esquisito pra chuchu, tipo familiar. Pior ainda – de familiares da base militar. Pismo Beach parece Mongaguá ou Praia Grande. Se o mar tiver quebrando grande, vale ver a tribo do surfe detonando no píer.  É show. Mais ao norte, você chega em Cambria. Tem 118 habitantes. Nada a ver. Prosseguindo: imagine Campos de Jordão com muito mais dinheiro e na praia. Pronto: você está em Carmel. Tudo muito bonitinho. É onde o norte-americano pratica seu esporte favorito: compras. Não espere gente bonita e sim muitos gordinhos de idade avançada. Sua avó iria adorar.

– Para curtir um visual, conheça as praias que ficam em sentido Sul, pegando a Scenic Drive. Carmel by the River é uma reserva onde pelicanos, gaivotas e afins têm seu santuário. O mar é pleno de focas, golfinhos, leões-marinhos e – dependendo da época – baleias. A vida marinha realmente surpreende num país tão industrializado. Um pouco mais acima você entrará na Zona Hippie de Santa Cruz. Muitas figuras são hilárias e parecem nunca terem visto um calendário depois da década de 70. Na beira da praia tem um complexo de carrosséis, montanhas-russas e games eletrônicos de fazer inveja ao Play Center. Essa mistura de farofa com hippie e surfista dá um astral engraçado. Vale conferir.

­– Se for pegar a estrada para baixo de LA, vá direto para San Diego. É o máximo. Tem uma cena e música demais. Você pode dar sorte de pegar um show que passou em Los Angeles por US$ 40 e lá pagar só U$$ 12. Como está pertinho do México, na verdade você está no México. Ou o que sobrou dele em território norte-americano. Com certeza você estará entre os mexicanos. O Downtown tem muitas construções coloniais de arquitetura interessantíssima. É como se tivessem dado um supertrato no Centrão de Sampa. Além disso,… Bom, além disso, é melhor deixar para falar de San Diego em outra matéria. Por agora só dá para dizer que, dando tempo, vale mesmo ir até lá.

Jornais – Quase não existem bancas de jornal nos moldes que conhecemos em LA. Em compensação, quase toda esquina tem um box no qual você coloca as moedas e pum: ela abre e você pega o jornal! Agora é o seguinte: os jornais daqui são jornais daqui. Dá para você saber tudo que está rolando na cidade e quase nada do que está rolando no mundo. Há menos que afete a economia ou política norte-americanas.

Para saber o que tem de interessante na cena cultural, experimente o LA Weekly ou o New Times. O jornal diário só fala da comunidade local. E o melhor: os outros dois são gratuitos. Para saber o que rola no planeta, vá ao Interative Cafe que fica na 214, Broadway – Santa Monica. Lá tem os principais jornais do mundo: Corriere de la Serra, Figaro, Libé, Deutsch Zeitung etc. De repente pode dar uma vontade louca de entrar em sintonia com o mundo. Então, basta entrar lá e pedir um cafezinho. Não precisa pagar o jornal. A menos que você queira levar pra casa, claro.

Língua – Oficialmente é o inglês. Mas na real o que se fala é um “idioma” norte-americano que está para o inglês, assim como o “brasileiro” está para o português. O truque é falar tudo mais rápido e pode comer um monte de palavras. Ex: em vez de falar “How are you doing?”, pronuncie apenas “Rariuduin”. Assim mesmo, rápido como convém para o ritmo de uma metrópole e com o “g” oculto. Caso contrário, pode ser que não te entendam ou achem que você é um idiota que ainda não sabe que estamos no século XXI. Você não fala inglês? Então aqui vai a notícia boa: parte considerável dos trabalhadores braçais (atendentes, garçons, lavadores de carro) é de origem chicana/asiática. Falam um inglês qualquer. Não precisa ter muita sorte para ser atendido por alguém Made in Mexico. Então ensaie o “portunhol” e buena sorte! O pior que pode acontecer é você traçar um taco. Ou ter de apelar prum Mac Donald’s.

Moedas – Você está pensando em ir para Las Vegas gastar seus pennies e dimes? Ora, para quê, se LA é um verdadeiro caça-níqueis? Você vai precisar de moedas para tudo (que custa pouco). Vai telefonar? Lá se vão no mínimo 35 cents. Isso se a máquina falante não engolir suas preciosas moedas. Vai estacionar? De 25 a 50 cents por meia hora (não se esqueça dos implacáveis “Traffic Officers”). Além disso, LA não tem guardadores de carro (ufa!). Mas tem uma imensa população de pedintes. Desde de um veterano do Vietnã até uma desajustada teenager podem olhar para você e pedir “a quarter” (25 cents). Por isso (e por muitos outros motivos que você ainda vai descobrir), as moedas são sempre úteis. Nunca menospreze sequer um cent. Lá não tem essa de “Posso ficar te devendo dois centavos?”.

Natureza – LA é praia. Mas não é por isso que você vai encontrar exuberância natural em abundância. No entanto, é impressionante o que tem de aves marinhas. Durante anos os gringos detonaram a natureza. Depois, eles perceberam que era melhor detonar a natureza no Terceiro Mundo e deixar o jardim de casa bonitinho. Agora, se der uma over de asfalto, a saída é o Joshua Tree Park. Na  Costa já está quase tudo urbanizado. O que sobrou não chega aos pés da flora que temos aqui. O pessoal costuma acampar no deserto. Calma, não precisa se sentir bicho grilo por isso. A infra é outra: mesas, luz elétrica, organização. Você aluga todos os equipamentos e você vai gastar quanto sua frescura exigir, pois tem tralha para todo tipo de “aventura” outdoor. Uma coisa que impressiona no Park é que você não vê ninguém até acender um palito de fósforo. Imediatamente vão surgir os guardas florestais reprimindo.

Oceano Pacífico – Cacete, que mar frio! Se sua ascendência é nórdica, você pode ter uma experiência de memória ancestral do que seria mergulhar no Mar da Noruega. Mas se seu sangue é do bom e caliente latino, alugue um short john, uma foamzinha e – em alguns picos de Santa Monica e Venice Beach – têm até umas blondies simpáticas que podem te ensinar a tomar as primeiras vacas num swellzinho de um metro.

Pedestres – Muito cuidado com pedestres, bikers, skaters e afins. Tem lugares que não têm semáforo, só faixa de segurança. Se um pedestre colocar o pezinho na faixa enquanto você estiver passando de carro, pare imediatamente. Agora, se o sinal estiver fechado para o pedestre e ele for atravessar, nem pense: atropele logo. As leis estão ao seu lado.(Brincadeirinha!). Mas o princípio é verdadeiro.

Pet Mania – Existe uma verdadeira pet mania em LA. Como todo mundo é durão e ninguém precisa de ninguém, Isso faz de Los Angeles, junto com São Paulo e Nova Iorque, uma das cidades mais solitárias do mundo. Por isso, muita gente precisa da companhia de cães, de gatos ou de ambos. Daí ocorrem comportamentos bizarros, como cerimônias de casamento entre bichanos, psiquiatria canina, butique com os lançamentos da estação para totós etc. Como os animais são uma espécie de alter ego dos seus donos, todos (ou quase todos) os bichinhos são stylish, bonitos e bem-tratados. Felizmente, estamos na América, onde cada indivíduo tem direito ao seu espaço. Portanto, os animais têm de ser bem treinados. Se um cão der uma escapada, ou pior, morder alguém (você, por exemplo), equivale a ganhar na loteria. Você processa e fatura uma grana alta. Para finalizar o assunto: com toda decadência e despautério norte-americanos, pelo menos eles tiveram o bom-senso de  proibir também animais nas praias. Exceto nas áreas delimitadas por lei, onde a população canina atinge índices de superlotação próximos aos do Carandiru, basta o cãozinho se aproximar da areia e um bay watcher (salva-vidas) estará com megafone em punho exorcizando o a animal e seu respectivo dono.

Polícia – Segundo uma amiga de São Francisco, existem os policiais norte-americanos e os policiais de LA. Os primeiros são uma espécie de escoteiro super-hiper-ultra-equipada, treinada como um fiel cão de guarda para “preservar a Ordem e a Lei em prol da comunidade”. Já o policial de Los Angeles é uma espécie de Big Brother em versão miniatura comparada à de George Orwell, mas enorme se colocada ao seu lado. Portanto, muito respeito. Você deve chamá-lo de “sir officer”. A menos que esteja muito seguro de si. Tem gente que manda bala num “fuckin’ cop”. Pero, maninho(a), é bom ter os neurônios registrando que você é um estranho uma terra estranha. O que, mais do que nunca, significa que respeito é bom e preserva os dentes.

Praia – Eles chamam de praia, mas basicamente é uma avenida de areia. Suja. Na maior parte do ano, a água e gélida e inóspita. O lado bom: sempre tem um banheiro perto (organização norte-americana) e muitas, mas muitas gaivotas. Para não ficar morgadão, fritando na areia ou congelando no vento, quase toda praia tem uma rede de vôlei. Você joga bem? Bom, dá para se entchurmar. Você joga mal? Então, vai procurar sua turma que os gringos são seriamente competitivos. Para pegar uma prainha, mar legal, vale  a pena sair de carro e tomar rumo norte. Logo depois de Santa Monica vem Malibu, com todos os surfistas, salva-vidas e loiras maravilhosas de seriados da TV. Mais adiante tem El Matador e Zuma aonde vai a galera mais descolada. Mas, no geral, as praias de Los Angeles só servem mesmo para dar saudades do Brasil. A menos que o mar esteja grande e você caia no surfe.

Preconceito – De um modo em geral, o losangelino se preocupa mais com forma do que com conteúdo. Isso faz com que eles sejam um dos expoentes máximos da ignorância. Por serem auto-suficientes, eles quase não têm idéia do que acontece além da fronteira. Um pouquinho de , talvez. Pelo sotaque podem perguntar de que parte da França você vem. Diga qualquer coisa porque eles não vão conhecer nada mesmo. De repente é melhor ser francês. Os brazucas não são muito bem vistos. Eles têm de nós a mesma idéia que nós temos dos países africanos onde rolam a ditadura. Eles acham que temos um governo corrupto, que matamos criancinhas e queimamos a Amazônia. Puxa vida, pensando bem, eles têm toda razão!

Proibido! – Apesar de a Califórnia ter sido, ao lado de Paris e Londres, o berço de inúmeras conquistas nas áreas da liberdade e da libertinagem, como diz a profecia: “o sonho acabou”. Trinta anos depois do Flower Power, quase tudo se tornou proibido. Ou, pelo menos, publicamente proibido. O que mais se vê são placas de “NO” isso e “NO” aquilo. É proibido beber em ambientes abertos, fumar em ambientes fechados, estacionar nos mais diversos lugares. Até naqueles em que não há a menor lógica. É proibido andar de skate no calçadão, andar a pé na Freeway ou na ciclovia, atravessar fora da faixa de segurança e pode até ser proibido dar uma cantada numa mocinha: se ela não gostar, pode te processar. Os caras se levam muito a sério. Portanto fique ligado. Porque, se El Niño conseguiu acabar como sol da Califórnia, a organização norte-americana acabou com a liberdade do povo que queimou bandeiras e sutiãs.

Revistas – Se você gosta de revistas, bem-vindo ao paraíso. Os norte-americanos têm publicações para tudo. Os preços são ótimos Se não fosse o excesso de peso, dá vontade de levar um container. Você já sabe que quase não existem bancas. Então você pode comprar revistas em qualquer lugar: no posto de gasolina, no supermercado e, é claro, nas fabulosas livrarias. Fácil, fácil você pode gastar um par de horas viajando nos imensos balcões de revistas da Barnes & Nobles sem gastar um centavo e sem nenhum balconista te olhar atravessado. Assunto de interesse é o que não falta.

Segurança – Esta é a Cidade dos Anjos. Dizem que é uma das metrópoles mais seguras do mundo. Não porque nela todos sejam bonzinhos. É que a  lei é tão rigorosa que ninguém comete delito se tiver chance de dançar. Nas áreas turísticas, no problem.  Dificilmente acontece algo anormal, tamanha é a vigilância. Só não vá desfilar de turista em Hollywood, Downtown ou East LA depois do pôr-do-sol. Você está na Cidade dos Anjos, mas vale lembrar que Lúcifer também era um deles.

Sexo – Ops! Todo mundo de orelha em pé. Se você é do sexo masculino, é muito fácil e muito difícil fazer sexo em LA. Explicando: fácil porque pode acontecer de você estar chegando num club e uma maluca (trubufa, claro) perguntar na lata “Are you ready for love?”. Se você não estiver morrendo de fome, apenas diga “I had already dinner, thanks” (Já jantei, obrigado) e caia fora que é roubada. E é difícil porque você só é alguém para a sua turma. Se você não tem cara de norte-americano, pode cortar as gringas. Se você não é oriental, corte as japs, chinas, thais etc. Se você não é black etc, etc. Sobram as latinas. Algumas (raras) chicanas são bonitas e sensuais. E tem as brasileiras, claro. Mas você não viajou dez mil milhas para comer comida caseira, certo? Se você estiver passando realmente mal, o jornal está cheio de anúncios de casas de massagem. São bem sugestivos, com fotos e tudo. Apesar de a prostituição não poder ser considerada crime, é ofensa à moral e bons costumes. Então, eles trataram de organizar a coisa. Isso significa que dificilmente você vai achar alguma prostituta na Zona (sic) Turística. Talvez na cidade fantasma de Downtown. Por ser tão organizado, prostituta em LA tem web site. Coisa mais insípida…

Sucesso – Os Estados Unidos são o país da competição/competitividade. Nova York é o expoente máximo e – mesmo sendo cidade de praia – a coisa não muda muito em LA. Você vai disputar espaço, tempo e, principalmente, destaque. Mas se liga: tudo aparentemente dentro das regras. Aos poucos, você vai descobrindo que talvez um dos grandes motivos do sucesso norte-americano é que eles conseguem ser altamente desleais fazendo tudo dentro das leis. O quê? Você acha isso hipócrita e não gosta de competir? Tudo bem, então fique na sua, looser.

Stress – Se você vai pra LA pensando em dar um tempo e descansar, esqueça. Vá para Bahia que é mais perto e econômico. Como toda metrópole, o povo daqui está sempre estressado. Pior: tem a tal da eficiência norte-americana. Então, na versão da Desiree “You have to be rich, You have to be fun, You have
to be smarter”. Então vai lá: mova seu cérebro e não marque toca. Podem te comer vivo. Não fisicamente, mas moralmente.

Trânsito – Basicamente, o trânsito é igual em todo o mundo, o que muda é o nível de civilização dos motoristas (leia-se rigor nas leis de trânsito). Em LA, as regras são bastante rígidas e, além disso, a cidade reserva algumas (várias) particularidades. Exemplo: num só Boulevard existem várias velocidades. Se você andar a 5 ou 10 mph a mais, tudo bem. Caso contrário, policiais de proporções rambescas te buscam em segundos. Nem imagina de onde eles vêm. Mas eles vêm. Outro exemplo é farol vermelho. Nem pense em ultrapassar só porque são duas da manhã, a cidade está quase deserta e você quase que obrigatoriamente está voltando para casa. Você olha para um lado, olha para outro, não vem ninguém, mas você deve continuar esperando. Você, o punk, o junk, o senhor de óculos e toda a fauna. Caso contrário, um cop 2 x 2 te pára imediatamente, aplica uma multa pesadíssima, você tem de freqüentar escolinha de trânsito e ainda pode perder a licença para dirigir. Portanto, respeite toda e qualquer sinalização. (Quando voltar para o Brasil, aproveite o embalo e continue respeitando. Perigas o trânsito melhorar). Por outro lado, existem detalhes que a princípio são ilógicos, mas fazem todo o sentido e agilizam o trânsito. Digamos que é meio-dia, o farol está vermelho, o policial está bem ao seu lado e você quer entrar à direita. Certifique-se que não há nenhum pedestre atravessando a rua que você quer entrar e avance no sinal vermelho. Se você não fizer isso, o pentelho que está atrás de você vai buzinar impiedosamente.

Venice – A Ocean Front Walk aos domingos é uma vitrine do planeta onde desfilam um mínimo de três raças/etnias por segundo. Uma verdadeira feira babilônica a céu aberto. É um lugar popular para ver e ser visto. Além do mais, tem ótimas barganhas. Tipo CD bom a US$ 5 ou uma camiseta por US$ 2. Não espere nada chique: é onde o povão vai pra se divertir gastando pouco. Mas pode esperar de tudo: um negão armário tamanho Schwarzenneger, uma loirinha deliciosa desfilando de biquíni, um turco otomano ortodoxo, muitos chicanos e até uma pseudo-simulação de batucada que parece mais Dança da Chuva. E você sabe: onde tem batucada, tem brasileiros. Dependendo do seu pique, vá logo para lá. Ou fuja correndo. Agora, em estando lá, não perca, mas não deixe mesmo de dar uma volta nos canais. Venice é Veneza em inglês. Daí o nome. São diversas ruas entrecortadas de canais que perdem de longe no visual e na consistência para aquele museu a céu aberto que é a Veneza italiana. Mas é uma espécie de oásis, com um astral sereno e casas multicores em arquitetura multiestilo que impressionam pela mudança abrupta de ambiência que são capazes de provocar. Para chegar lá, pegue o Pacific Boulvard. Na altura da rua 20th, entre sentido East. Não esqueça a câmera.

Ucla – Aí, mais uma sigla: University of Los Angeles California. O campus é bem freqüentado intelecto e visualmente. Tem cursos sensacionais. Pegue um book do calendário na Promenade, em Santa Mônica, ou no próprio campus A questão é que você precisa visto de estudante, Certificado Toefl, burocracias mil. Mas num lance de sorte, misturado com absoluta cara-de-pau, dá para simplesmente aparecer numas aulas. Ficando quietinho, os professores nem vão notar que você existe. Você pode ser mais correto e tentar convencer o professor que quer assistir a aula como ouvinte. Mas escolha uma área pela qual você tenha consistência no conteúdo e paixão sem limites. Seu entusiasmo pode impressionar e o cara te libera. Uma outra coisa legal na Ucla é que tem um departamento de apoio aos estudantes estrangeiros. Eles te descolam os canais de quem está procurando espaço para rachar despesas e de quem hospeda estudantes em casa. Aí é aquela coisa: menos dólares gastos em troca de menor privacidade. Você é quem escolhe.

Xing – O idioma inglês já é sucinto. Os norte-americanos abreviam ainda mais. Você verá a palavra “xing” freqüentemente. Não é chinês e nem é para xingar. E só a abreviatura de “crossing”, que é cruzamento. SJVGLPF, por exemplo, significa “Single Jewish Very Good Looking Professional Female”. Conciso, né? Existem vários exemplos. Fiz questão de colocar o “xing” antes que você batesse o carro ou atropelasse alguém. Se você está dirigindo e ler no asfalto a frase “PED XING”, diminua imediatamente a velocidade. Pode ser que uma mamãe e seu baby estejam querendo atravessar. E você já leu no item Pedestres a importância que se dá aos transeuntes.

Zôo – Já deu para perceber que Los Angeles é um zoológico humano. A fauna urbana é bastante exótica e a biodiversidade dá o tom. Aproveite e tire fotos (algumas espécies cobram por isso). Mas nunca alimente os humanos. Eles já são muito bem nutridos.  No mais, LA é só diversão. Enjoy and have a nice trip!

Marcelo Musarra é jornalista  e publicitário. Sua agência é a  ALÔ – DESIGN, COMUNICAÇÃO

E-mail: www.alodesign.carbonmade.com

~ por Fabíola Musarra em Março 8, 2010.

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