O vale das cervejas – Santa Catarina

Considerada como paixão nacional, a cerveja – não aquela de marca conhecida, mas a artesanal – acaba de ganhar um roteiro. Ele fica no Vale Europeu, em Santa Catarina, em algumas das cidades mais alemãs do Brasil, onde o hábito de beber cerveja é tão antigo quanto o de fabricá-la.

Por Fabíola Musarra Fotos: Elton Souza – publicado em fevereiro de 2008

Você pensa que está na Europa. Olha ao redor, tudo sugere aqueles vales recobertos de infinitos tons de verde e de casinhas floridas que se vê quando se percorre a região do Tirol, especialmente o trecho entre a Áustria e a Itália. O cenário, no entanto, fica a poucas horas de avião de qualquer capital brasileira: situa-se em Santa Catarina. Culturalmente, esse pedaço de Brasil é um prato repleto de aromas e sabores que se mesclam e se espalham pelo ar, herança dos povos que ali se instalaram: alemães, italianos, ucranianos, poloneses, tiroleses, portugueses, africanos e índios. E é dentro do coração deste Estado que pulsa o Vale Europeu, onde um curioso roteiro turístico nasceu e vem rapidamente ganhando fama: o das cervejarias artesanais. Embora o circuito tenha sido oficializado apenas no ano passado, o namoro entre a cerveja artesanal e os moradores dessa miniatura brasileira do Velho Continente é antigo. Data de 1860, quando o alemão Heinrich Hosang fundou a primeira cervejaria em Blumenau, que funcionou até 1923. Nesses quase 150 anos da produção artesanal, a cerveja passou por momentos de glória no início do século 20, quando as microcervejarias multiplicavam-se no Vale Europeu, apesar de toda a dificuldade para fabricá-la – era transportada em carroças e sua tampa era feita de cortiça e amarrada com barbante.

Também conheceu o abandono, quando mais tarde as grandes indústrias invadiram o mercado, incorporando algumas fábricas. Outras faliram. Mas deixaram saudade. Tanta que há alguns anos descendentes dos primeiros imigrantes alemães resgataram a receita original da cerveja e começaram tudo de novo. Hoje, somente entre Blumenau, Brusque, Pomerode, Gaspar, Timbó e Indaial existem nove microcervejarias.

Quando se pensa em um roteiro turístico de visitação às cervejarias da região, uma das primeiras perguntas que vêm à cabeça é: afinal, o que é uma cerveja artesanal? Em que ela difere de uma industrializada? À primeira vista, a resposta reside no modo de produzila. Mero engano. Claro que todas elas – ao menos as daquela região – obedecem à Reinheitsgebot (Lei de Pureza Alemã), criada em 1516 pelo duque Guilherme 4º, na Bavária.

Em vigor até hoje na Alemanha, ela estabelece que a cerveja só pode ser fabricada com quatro ingredientes: água, lúpulo, malte e fermento. Se para você isso não quer dizer nada, leia o rótulo das cervejas industrializadas. Constatará que a composição delas não obedece à Reinheitsgebot, incluindo aditivos, antioxidantes, conser vantes. Eles surgem sob o pseudônimo de cereais não-maltados e, na prática, são os responsáveis pela interminável ressaca do dia seguinte.

A cerveja deve ser degustada numa TEMPERATURA que varia entre 3 e 10 GRAUS, e não estupidamente gelada, conforme recomendam as propagandas

OUTRA LIÇÃO QUE SE aprende ao longo do trajeto é que chope não é sinônimo de cerveja. O primeiro é a bebida crua. Caso seja engarrafada, terá de ser pasteurizada – a garrafa cheia é submetida por 15 minutos a uma temperatura de 75 graus, a fim de eliminar os microorganismos e aumentar sua vida útil. A bebida, então, passa a ser chamada de cerveja, cuja durabilidade é de 15 dias. A partir desse momento, todo cuidado é pouco, porque começa a perecer. A menos que inclua em sua composição conservantes, o que fere a Lei de Pureza Alemã.

 

No percurso também é ensinado que a cerveja deve ser degustada numa temperatura que varia entre 3 e 10 graus, e não estupidamente gelada, conforme recomendam as propagandas das marcas industrializadas. Motivo? A temperatura extremamente fria – abaixo de 2 ou 3 graus – entorpece o paladar humano (ninguém consegue sentir o sabor de algo muito frio ou muito quente), driblando o paladar quanto aos ingredientes artificiais adicionados à cerveja.

 

POMERODE É OUTRA cidade que integra o circuito. Colonizada a partir de 1861 por imigrantes vindos da Pomerânia, norte da Alemanha (atual Polônia), é uma autêntica vila germânica (80% de seus habitantes descendem de alemães e a maioria fala o idioma), com suas casas de arquitetura enxaimel. Também é ali que fica a Schornstein, onde pode-se apreciar quatro opções de cerveja: natural, cristal e fest (pilsen) e a bock, a prata da casa.

Seu bar é um charme. Logo na entrada, você vê o símbolo da Schornstein, uma chaminé de 30 metros de altura totalmente intacta, apesar de seus 50 anos. Em seu interior, a visão dos tanques de cobre atrás do balcão onde a bebida é preparada é um aperitivo para a degustação que virá a seguir. Quem pilota os tanques é José Carlos Rosa, um expert em cerveja que aprendeu o ofício exercendo-o na prática.

Localizada em Brusque, a Zehn Bier produz 60 mil litros por mês, sempre sob o olhar atento do mestre-cervejeiro Curt Zastrow. É ele quem controla o padrão dos três tipos ali fabricados: pilsen, bock e staut & porter. No bar da fábrica, uma invenção do proprietário José Carlos Zen chama a atenção: a galeria dos imortais da cerveja, cujos membros têm seu próprio copo numa estante exclusiva. A exemplo do que acontece na Academia Brasileira de Letras, as vagas são limitadas e os “acadêmicos” da confraria só são substituídos em caso de morte. Há ainda o cartão de ponto, que controla quantas vezes os “imortais” compareceram ou não ao local. Por seu alto-astral, a cervejaria virou balada e é o point descolado para quem curte gente bonita.

O roteiro inclui ainda outras microcervejarias. Caso da Borck, em Timbó. Única fabricante de malzebier artesanal do Brasil, é a mais antiga da região. Em Indaial, você pode conhecer a Heimat, que emprega uma receita criada há 700 anos para produzir suas cervejas. Ainda nessa cidade, conheça a Kannenbier, cujo carro-chefe é a stout. Em Gaspar, a Das Bier é a pedida. Oferece os chopes pilsen (claro) e braune ale (escuro) em sua sede, com bar e deck com vista para um cenário imperdível.

Cada uma das cervejarias tem seus encantos. Visitálas é um passeio indispensável para quem deseja conhecer o processo de fabricação ou simplesmente provar a bebida. Percorrer essa trilha também é viajar aos tempos coloniais, quando imigrantes desembarcaram aqui, com seus hábitos e costumes, imprimindo um novo colorido à nossa terra e à nossa gente. Por isso e muito mais, a região merece mesmo ser conhecida, ainda mais sabendo que em sua estadia você estará acompanhado pela loira que é uma antiga paixão nacional, a cerveja. Saúde ou Ein Prost!, como brindam os alemães.

SERVIÇO
Museu da Cerveja – Tel. (47) 3326-8380
Bierland – www.bierland.com.br
Borck – www.borck.com.br
Das Bier – www.dasbier.com.br
Eisenbahn – www.eisenbahn.com.br
Heimat – www.choppheimat.com.br
Schornstein – www.schornstein.com.br
Zehn Bier – www.zehnbier.com.br

~ por Fabíola Musarra em Março 4, 2010.

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