Manaus – Amazonas

A mãe dos deuses

A influência das tribos indígenas está presente na arte, cultura, folclore, gastronomia e no dia-a-dia do Amazonas, a começar pelo nome da capital do Estado: significa “a mãe dos deuses”, no idioma dos manaós, os índios que ali viviam antes mesmo de Manaus ser fundada em 1669

 Por Fabíola Musarra – publicado em maio de 2009

Roberto Castro/Ag.Istoé

Difícil falar de algo quando se conhece pouco sobre ele, embora sempre o desconhecido nos cause algumas impressões – boas ou más, dependendo também do nosso estado de humor. No caso de Manaus (AM), a paixão foi à primeira vista. Primeiramente, porque a cidade fica no coração da Floresta Amazônica e às margens do rio Negro, num território habitado por lendas e que esbanja arte, folclore e cultura. Depois, porque concilia sua exuberante natureza com um avançado polo industrial e tecnologia de ponta. A capital do Estado do Amazonas é ainda repleta de opções de lazer e de compras, além de possuir uma gastronomia única. Povoadas pela hospitalidade de sua gente, suas ruas e esquinas são cheias de charme e têm muita história para contar.

A começar pela versão indígena da origem do rio Amazonas, um dos mais importantes do mundo: há muitos anos, um casal apaixonado vivia na selva amazônica. Ela vestia-se de prata e seu nome era Lua. Ele trajava ouro e chamava-se Sol. Lua era a dona da noite e Sol, dono do dia. Porém, um obstáculo impedia aquele relacionamento: toda vez que se encontravam, o ardente amor de Sol queimava a terra, fazendo a Lua chorar. Assim, como poderiam se casar? A Lua apagaria o fogo? O Sol evaporaria a água? Diante do impasse insolúvel, eles se separaram.

Desolada, a Lua chorou muito. Suas lágrimas escorreram por morros até chegar ao mar. Mas ele não quis aceitar toda aquele aguaceiro. Fez então suas águas ficarem bravas, impedindo que as da Lua se misturassem às suas. Assustadas, as águas escavaram um vale e serras se levantaram. Em seu interior, um imenso rio apareceu. Formado pelas lágrimas da Lua, foi batizado de rio Amazonas.

Também o próprio nome do Estado remete à Grécia Antiga, onde diziam existir um grupo de amazonas, destemidas guerreiras que eram imbatíveis nas lutas que travavam do alto de seus cavalos. Como quando os portugueses chegaram aqui encontraram as índias, que corajosamente resistiam aos estrangeiros com seus arcos e flechas, batizaram o local de Amazonas.

Claro que essas não são histórias verdadeiras, mas algumas das inúmeras lendas que brotam naqueles solos e que tanto serviram de inspiração para os livros de Mário de Andrade, sobretudo Macunaíma, uma de suas obras-primas permeada por fantásticos contos de tribos indígenas amazonenses que explicam a criação do universo e dos elementos da natureza. Mas se a ficção não bastar, Manaus também transpira história. Percorrer as ruas de seu centro é fazer uma incrível viagem ao passado. Nos pontos turísticos ali localizados, é possível imaginar a próspera Manaus dos tempos áureos do ciclo da borracha, quando a cidade – por sua riqueza e luxo – era conhecida como a Paris dos Trópicos.

Afinal, no período de 1840 a 1915, o comércio internacional da borracha, cuja matéria-prima, o látex, era extraída das seringueiras nativas da floresta, atraiu homens de negócios do mundo todo. A riqueza gerada pela exportação da borracha financiou a construção, em plena selva, de prédios suntuosos que reproduziam os estilos arquitetônicos em moda na Europa. No centro de Manaus, muitas construções testemunham como a influência da cultura europeia estava presente na arquitetura e nos hábitos dos moradores naquele período. O Teatro Amazonas é um exemplo. Inaugurado em 1896, é o maior símbolo do apogeu econômico dos manauaras, como são chamadas as pessoas que nascem na cidade.

Localizado na Praça São Sebastião, tem 700 lugares e foi construído com tijolos, ferragens, estátuas, esculturas e cristais trazidos da Europa. Caso dos vidros franceses e do mármore italiano, só para citar alguns materiais. Do Brasil, apenas o jacarandá foi usado no piso e nas cadeiras. Mesmo assim, essa madeira foi enviada à Europa para ser trabalhada. No palco, as pinturas importadas do teto foram feitas intencionalmente para lembrar a Torre Eiffel, de Paris. Já na sala que é ocupada durante os intervalos dos espetáculos, a pintura do teto e as telas laterais foram criadas pelo italiano Domenico de Angelis. O ambiente é ainda adornado com detalhes em ouro de 16 quilates e mármore carrara, tem piso de jacarandá (colocado sem um único prego) e colunas em bronze.

A riqueza gerada pela exportação da borracha financiou a construção, em plena selva, de prédios suntuosos que reproduziam os estilos arquitetônicos usados na Europa

Na mesma praça do teatro fica a Igreja de São Sebastião, cuja construção data de 1888, e o monumento erguido em comemoração à abertura dos portos. Próximo dali encontra-se o conjunto arquitetônico do Porto de Manaus, uma interessante obra de engenharia que flutua conforme a subida e descida das águas do rio Negro. Tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional em 1987, é composto pelos prédios da Ilha de São Vicente (Rua Bernardo Ramos) e do Escritório Central (Rua Taqueirinha), pelo Museu do Porto (Boulevard Vivaldo Lima), pelo edifício onde funciona o anexo da Assembleia Legislativa (Rua Governador Vitório) e pelo antigo prédio do Tesouro Público (Rua Maurício de Souza).

Também integram o complexo o Trapiche 15 de Novembro e demais armazéns, as pontes, os cais flutuantes e os prédios da Alfândega e da Guardamoria, além da construção localizada na entrada do Roadway. Com exceção do prédio da Ilha de São Vicente (já existia em 1852), do prédio do Tesouro e do Trapiche 15 de Novembro (construídos em 1890), as demais instalações do Porto de Manaus foram projetadas e erguidas na primeira década do século 20 pela empresa inglesa Manaos Harbour Limited, que administrou os serviços portuários até a década de 1960.

A poucos metros do porto, na Praça Oswaldo Cruz, fica a primeira igreja de Manaus: a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, a padroeira da cidade. Construída em 1695, sofreu um incêndio em 1850 e somente ficou pronta em 1878. Próximo à Igreja da Matriz, na Avenida Eduardo Ribeiro, encontra-se o relógio municipal, cuja obra foi concluída em 1927. Foi importado da Suíça para comemorar o centenário da elevação de Manaus à categoria de cidade. Ao longo e nas imediações da mais importante avenida central da cidade é possível ver várias outras construções do século 19, incluindo uma ponte metálica construída pelos ingleses (atrás do presídio feminino), além de casarões dos antigos senhores da borracha, onde hoje funcionam centros culturais.

O Teatro Amazonas e detalhes da decoração e da arquitetura de seu interior; e o monumento erguido em comemoração à abertura dos portos, localizado na praça que abriga a Igreja de São Sebastião, construída em 1888.
O cais do Porto de Manaus; o intenso comércio informal praticado nas imediações dele; e os diferentes tipos de peixes comercializados nas barracas do Mercado Municipal Adolfo Lisboa.

Ainda no centro, o Mercado Municipal Adolfo Lisboa (Rua dos Barés) é uma atração à parte. A construção, em estilo art nouveau e com vitrais coloridos, merece ser visitada, embora a parte mais bonita dela – a estrutura em ferro fundido projetada por Gustavo Eiffel, o mesmo arquiteto da Torre Eiffel – esteja sendo restaurada. Inaugurado em 1882, é uma réplica do mercado Les Halles, de Paris, e a principal porta de entrada na cidade da produção pesqueira e rural do Estado.

Espalhadas pelo seu interior, as várias barracas vão contando como é a gastronomia local, que tem nos peixes e nos vegetais amazônicos os seus pontos fortes. Entre os seus principais pratos estão os peixes tambaqui, matrinxã, jaraqui, pacu, pirarucu e tucunaré, que são servidos assados, ensopados, fritos, à milanesa. Enfim, de incontáveis maneiras. No mercado e também nas principais ruas de Manaus podem-se provar quitutes típicos, como o tacacá, uma espécie de sopa preparada com tucupi, camarão seco, goma de mandioca e folhas de jambu. Para a sobremesa, há uma infinidade de frutas exóticas, desde açaí, araçá, abacaba, cupuaçu, graviola, guaraná e buriti até taperebá. Elas surgem ao natural e em sucos, sorvetes e doces.

A exemplo da gastronomia, o artesanato remete à cultura das diversas tribos indígenas que se espalham em territórios dos 62 municípios do Estado

Para quem não abre mão dos sanduíches, Manaus oferece uma opção curiosa: o Cheese Caboclinho, a versão local do cheeseburguer, só que feito com pão, queijo e tucumã, que substitui a carne.

Assim como a gastronomia, o artesanato remete à cultura das diversas tribos indígenas que se espalham em territórios dos 62 municípios do Estado. São cestos, peneiras, gamelas, vasilhas, estátuas, bijuterias e até brinquedos, confeccionados com fibras vegetais, sementes, cipós, madeira e cerâmica, além de penas, pele e osso de animais. Eles podem ser comprados nas inúmeras feiras de artesanato, nas ruas e nas lojas dos seis shopping centers da cidade. Domingo, por exemplo, a Avenida Eduardo Ribeiro abriga uma pitoresca feira que reúne artesanato e comida típica, oferecendo sobretudo os itens que integram o café da manhã manauara: sucos de frutas regionais, farofa e outras guloseimas feitas à base de mandioca. Muita gente, aliás, depois do agito já amanhece por ali, onde aproveita para degustar a primeira refeição do dia.

Por falar em balada, a cidade é repleta delas – há bares e casas noturnas para todos os bolsos e gostos musicais, do rock, tecno, reggae e MPB ao axé, forró, samba e pagode, sem esquecer das toadas de boi. Por sinal, Manaus também tem o seu festival folclórico do boi, que é realizado todos os anos no aniversário da cidade, dia 24 de outubro. Nos seus três dias de duração, o Boi Manaus envolve quase todo o 1,7 milhão de habitantes da cidade, contagiando-os e também aos turistas com sua eletrizante animação, imperdíveis shows pirotécnicos e, é claro, com muita música, dança e coreografia.

No sentido horário, a partir do alto, a placa do porto mostra o nível do rio Negro, indicando ainda os anos em que ele causou enchentes; o ensaio do boi Caprichoso no sambódromo; e as barracas de sucos e comidas típicas da Rua Eduardo Ribeiro.
Uma das piscinas do Tropical Hotel foi projetada para dar a sensação de se estar nadando no rio Negro.

Os bois Caprichoso (dizem que é o da elite) e Garantido (o do povão) dividem a torcida da cidade em azul (a cor do primeiro) e vermelho (a do segundo). Embora o festival mais tradicional do País seja o da vizinha cidade de Parintins, os manauaras são apaixonados por essa manifestação folclórica. Tanto é que já a partir de março (este ano começou no dia 21) se preparam para se apresentar no bumbódromo de Parintins, no último fim de semana de junho, quando o evento acontece, arrastando para lá milhares de integrantes das galeras, como as torcidas dos bois são chamadas. Enquanto junho não chega, os ensaios são realizados todos os sábados à noite no sambódromo de Manaus (fica entre a Chapada e o bairro da Alvorada), onde Caprichoso e Garantido se revezam a cada semana, num desfile de cores, sons e beleza indescritíveis.

Um miniespetáculo do boi também pode ser visto em alguns bares da orla da Ponta Negra. Localizada a 13 quilômetros do centro de Manaus, ela é – por si só – um dos importantes cartõespostais da cidade. Pelo seu calçadão, às margens do rio Negro, espalham-se quadras esportivas, ciclovia, playground e vários bares, restaurantes e lanchonetes. Dali pode-se admirar um memorável pôr do sol. Dispõe também de um grande anfiteatro, camarim e toda a infraestrutura para shows, sendo palco constante de espetáculos, incluindo a comemoração da chegada do ano-novo.

Também é na Ponta Negra que fica o Tropical Hotel. Além de shows semanais do boi, funciona como um clube, especialmente nos fins de semana. Seus restaurantes, quadras esportivas, lojas, zoológico e tantas outras opções também podem ser desfrutadas por quem não é hóspede. De seu píer, por exemplo, saem barcos e um hidroavião em busca de um dos cenários naturais mais privilegiados de Manaus: o encontro das águas escuras do rio Negro com as águas barrentas do rio Solimões. Os dois rios correm paralelos, sem se misturar, por alguns quilômetros. O fenômeno acontece devido à diferença de densidade, temperatura e velocidade das águas dos dois rios: o Negro corre cerca de 2 km/h, a uma temperatura de 22°C. Já o Solimões corre de 4 a 6 km/h, a uma temperatura de 28°C. Explicações à parte, o espetáculo é pura emoção. Afinal, é da união dos dois rios que nasce o Amazonas. E não é todo dia que a gente pode ver um rio “nascer”, não é mesmo?

Inverno e inferno

Em termos de clima, saiba que Manaus é um forno. Para você ter uma ideia, os próprios manauaras são os primeiros a brincar, dizendo que lá só existem duas estações: o inverno (período chuvoso, que vai de dezembro a maio, quando a temperatura é mais amena) e o inferno (verão, de junho a novembro, época de sol intenso e temperatura elevada, em torno de 38ºC, podendo atingir 40ºC – à sombra –, em setembro). De fato, devido à sua proximidade com a linha do equador, Manaus tem clima quente e úmido, com temperatura média anual de 27ºC. Embora durante todo o ano caiam fortes pancadas de chuva de pouca duração, elas não aliviam em nada o calor. Ao contrário, só tornam ainda mais abafada a cidade, onde dificilmente venta.

Serviço
Onde ficar: Tropical Hotel Manaus
Av. Coronel Teixeira, 1.320, tel. (92) 2123-5155,
site www.tropicalhotel.com.br
Para saber mais: www.manausonline.com

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~ por Fabíola Musarra em Fevereiro 26, 2010.

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