Manaus, a mãe dos deuses

A influência das tribos indígenas está presente na arte, na cultura, no folclore, na gastronomia e no dia a dia do Amazonas, a começar pelo nome da capital do Estado: significa “a mãe dos deuses”, no idioma dos manaós, índios que ali viveram antes mesmo de a cidade ser fundada em 1669.

Por Fabíola Musarra

Vista aérea de Manaus - Foto Wikimédia

Difícil falar de algo quando pouco se conhece sobre ele, embora sempre o desconhecido nos cause algumas impressões – boas ou más, dependendo também do nosso estado de humor. No caso de Manaus (AM), a paixão foi à primeira vista. Primeiro, porque a cidade fica no coração da Floresta Amazônica e às margens do Rio Negro, num território habitado por lendas, que esbanja arte, folclore e cultura.

Depois, porque Manaus concilia exuberante natureza com um avançado polo industrial e tecnologia de ponta. A capital do Estado do Amazonas é ainda repleta de opções de lazer e de compras, além de possuir uma gastronomia única. Povoadas pela hospitalidade de sua gente, suas ruas e esquinas são cheias de charme e têm muita história para contar.

Bairro de Vireiralves em Manaus - Foto Wikimedia

A começar pela versão indígena da origem do Rio Amazonas, um dos mais importantes do mundo. Segundo a lenda, há muitos anos, um casal apaixonado vivia na selva amazônica. Ela vestia-se de prata e seu nome era Lua. Ele trajava ouro e chamava-se Sol. Lua era a dona da noite e o Sol, dono do dia.

Porém, um obstáculo impedia aquele relacionamento: toda vez que se encontravam, o ardente amor de Sol queimava a terra, fazendo a Lua chorar. Assim, como poderiam se casar? A Lua apagaria o fogo? O Sol evaporaria a água? Diante do impasse insolúvel, eles se separaram. Desolada, a Lua chorou muito.

Igarapé com vitórias-régias, perto de Manaus

Suas lágrimas escorreram por morros até chegar ao mar. Mas o oceano não quis aceitar todo aquele aguaceiro. Ordenou, então, que as suas águas ficassem bravas, impedindo que as da Lua se misturassem às suas. Assustadas, as doces águas escavaram um vale e serras se levantaram. Em seu interior, um imenso rio apareceu. Formado pelas lágrimas da Lua, foi batizado de Rio Amazonas.

Botos cor-de-rosa acostumaram-se a comer nas mãos das pessoas, no Anavilhanas Jungle Lodge, Amazonas.

Também o próprio nome do Estado remete à Grécia Antiga, onde diziam existir um grupo de amazonas, destemidas guerreiras que eram imbatíveis nas lutas que travavam do alto de seus cavalos. Como quando os portugueses chegaram aqui encontraram as índias, que corajosamente resistiam aos estrangeiros com seus arcos e flechas, batizaram o local de Amazonas.

Claro que essas não são histórias verdadeiras. Porém, algumas das inúmeras lendas que brotam nesse pedaço de solo do Norte tupiniquim País serviram de inspiração para os livros de Mário de Andrade (1893 a 1945), sobretudo “Macunaíma”, uma das obras-primas do talentoso escritor brasileiro.

“Macunaima” é permeado por fantásticos contos de tribos indígenas amazonenses, incluindo o que explica a criação do universo e dos elementos da natureza. Mas se a ficção não bastar, Manaus também transpira história. Percorrer as ruas de seu centro é fazer uma incrível viagem ao passado.

Centro_Histórico_de_Manaus

Nos pontos turísticos que por ali se espalham é possível imaginar a próspera Manaus dos tempos áureos do ciclo da borracha  (1840 a 1915), quando a cidade, por sua riqueza e luxo, ficou sendo conhecida como a Paris dos Trópicos – a matéria-prima para a confecção da borracha é o látex, substância líquida extraída de algumas flores e plantas, como a papoula e a seringueira.

Durante o ciclo da borracha, o látex foi retirado das seringueiras nativas da floresta, atraindo homens de negócios de todo o mundo. E foi a riqueza gerada pela exportação da borracha nacional que financiou a construção, em plena selva, de prédios suntuosos que reproduziam os estilos arquitetônicos em moda na Europa.

No centro de Manaus, muitas construções testemunham como a influência da cultura europeia estava presente na arquitetura e nos hábitos dos moradores naquele período. O Teatro Amazonas é um exemplo. Inaugurado em 1896, é o maior símbolo do apogeu econômico dos manauaras, como são chamadas as pessoas que nascem na cidade.

Teatro Amazonas - Vista Aérea  - Wikimedia.jpg

Situado na Praça São Sebastião, tem 700 lugares e foi erguido com tijolos, estátuas, esculturas e cristais trazidos da Europa. Caso dos vidros franceses e do mármore italiano, só para citar alguns itens. Do Brasil, a construção empregou apenas o jacarandá – pode ser visto no piso (colocado sem um único prego) e nas cadeiras. Mesmo assim, a madeira foi enviada à Europa para ser trabalhada.

As pinturas do teto do palco foram feitas intencionalmente para lembrar a  francesa Torre Eiffel. Já a pintura do teto e as telas laterais dispostas na sala de intervalos dos espetáculos são do italiano Domenico de Angelis. Com detalhes em ouro de 16 quilates e mármore carrara, esse espaço exibe ainda piso de jacarandá e colunas em bronze.

Na mesma praça do teatro fica a Igreja de São Sebastião, cuja construção data de 1888, e o monumento erguido em comemoração à abertura dos portos. Ainda no centro, encontra-se o conjunto arquitetônico do Porto de Manaus, uma interessante obra de engenharia que flutua conforme a subida e descida das águas do Rio Negro.

Porto de Manaus - Wikimedia

O complexo é composto pelos prédios da Ilha de São Vicente (Rua Bernardo Ramos), Escritório Central (Rua Taqueirinha), Museu do Porto (Boulevard Vivaldo Lima), edifício onde funciona o anexo da Assembléia Legislativa (Rua Governador Vitório) e pelo antigo prédio do Tesouro Público (Rua Maurício de Souza).

Conjunto arquitetônico do Porto de Manaus - Wikimedia

Também integram esse tesouro arquitetônico tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional o Trapiche 15 de Novembro e demais armazéns, as pontes, os cais flutuantes e os prédios da Alfândega e da Guardamoria, além da construção localizada na entrada do Roadway.

Alfândega de Manaus - Wikimedia.JPG

Com exceção dos prédios da Ilha de São Vicente (já existia em 1852) e do Tesouro e do Trapiche 15 de Novembro (construídos em 1890), as demais instalações do porto foram projetadas e construídas na primeira década do século 20 pela inglesa Manaos Harbour Limited, empresa que administrou os serviços portuários até a década de 1960.

Igreja Matriz de Manaus - Wikimedia.jpg

Já na central Praça Oswaldo Cruz fica a primeira igreja de Manaus: a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, a padroeira da cidade. Construída em 1695, sofreu um incêndio em 1850 e somente ficou pronta em 1878. Próximo à Matriz, na centenária Avenida Eduardo Ribeiro (foi inaugurada no final do século 19), está o relógio municipal.

Entregue à  população em 1927, foi importado da Suíça para comemorar o centenário da elevação de Manaus à categoria de cidade. Ao longo e nas imediações da Eduardo Ribeiro pode-se admirar diversas construções do século 19, incluindo uma ponte metálica feita ingleses (atrás do presídio feminino), além de casarões dos antigos senhores da borracha.

Fachada do Mercado Municipal Adolfo Lisboa.jpg

Também é no centro da cidade que fica o Mercado Municipal Adolfo Lisboa (Rua dos Barés). Construído em estilo art-nouveau e com vitrais coloridos, tem estrutura em ferro fundido projetada por Gustavo Eiffel, o mesmo arquiteto da Torre Eiffel. Inaugurado em 1882, é uma réplica do mercado Les Halles, de Paris (França).

Mercado Municipal Adolfo Lisboa - Manaus.jpg

O mercado é a principal porta de entrada da produção pesqueira e rural do Amazonas. Em seu interior, barraquinhas “contam” como é a gastronomia local.  Inspirada em peixes e vegetais amazônicos, apresenta pratos à  base dos peixes tambaqui, matrinxã, jaraqui, pacu, pirarucu e tucunaré, que são servidos assados, ensopados, fritos, à moda…

Banda de Tambaqui Acompanha de baião, vinagrete, pirão, batatas assadas, banana frita e farinha ovinha - Foto facebook Vitrine Amazônica.jpg

Banda de Tambaqui .Acompanha de baião, vinagrete, pirão, batatas assadas, banana frita e farinha ovinha. Foto: facebook Vitrine Amazônica

Tanto no mercado como nas principais ruas de Manaus pode-se provar quitutes típicos, como o tacacá, prato que leva tucupi, camarão seco, goma de mandioca e folhas de jambu. Para quem não abre mão dos sanduíches, uma dica o Cheese Caboclinho, a versão local do cheesebúrguer, só que feito com pão, queijo e tucumã, que substitui a carne.

Em Manaus também não faltam bares, docerias e pequenos pontos de venda nas ruas que comercializam pitorescas sobremesas, sobretudo as feitas com exóticas frutas, desde araçá, cupuaçu, graviola e guaraná até buriti, bacaba e taperebá. Elas surgem ao natural e em sucos, sorvetes e doces.

Artesanato indígena.JPG

Assim como a gastronomia, o artesanato remete à cultura das diversas tribos indígenas que se espalham em territórios dos 62 municípios do Estado. São cestos, peneiras, gamelas, vasilhas, estátuas, bijuterias e até brinquedos, confeccionados com fibras vegetais, sementes, cipós, madeira e cerâmica, além de penas, pele e osso de animais. Eles podem ser comprados em feiras de artesanato, lojas e em shopping centers.

Domingo, por exemplo, a Avenida Eduardo Ribeiro abriga uma feira que reúne artesanato e comida típica, oferecendo sobretudo os itens que integram o café da manhã manauara: sucos de frutas regionais, farofa e outras guloseimas feitas à base de mandioca. Muita gente, aliás, depois do agito já amanhece por ali, onde aproveita para degustar a primeira refeição do dia.

Por falar em balada, a cidade é repleta delas – há bares e casas noturnas para todos os bolsos e gostos musicais, do rock, tecno, reggae e MPB ao axé, forró, samba e pagode, sem esquecer das toadas de boi. Por sinal, Manaus também tem o seu festival folclórico do boi, que é realizado todos os anos no aniversário da cidade, dia 24 de outubro.

Nos  três dias de duração, o Boi Manaus envolve praticamente toda a população da cidade (mais de 1,7 milhão de habitantes), contagiando também os turistas com sua alegria e animação, imperdíveis shows pirotécnicos e, é claro, com o seu festival de cores, música, dança e coreografia.

Festa - Foto - Site www.amazonasemais.com.br.jpg

Os bois Caprichoso (à esquerda)  e Garantido. Foto: Site Amazonas e Mais

Os bois Caprichoso (dizem que é o da elite) e Garantido (o do povão) dividem a torcida da cidade em azul (a cor do primeiro) e vermelho (a do segundo). Embora o festival mais tradicional do País seja o da vizinha cidade de Parintins, os manauaras são apaixonados por essa manifestação folclórica.

Tanto é logo no início do ano, em março, já começam a se preparar para a apresentação. Para isso, participam da festa do bois no bumbódromo de Parintins, município vizinho onde o evento é realizado no último fim de semana de junho, quando atrai milhares de  turistas e os integrantes das galeras, como as torcidas do  Azul e do Vermelho são chamadas.

Enquanto junho não chega, os eletrizantes ensaios são realizados todos os sábados à noite no sambódromo de Manaus (fica entre a Chapada e o bairro da Alvorada), onde Caprichoso e o Garantido se revezam a cada semana, num desfile de cores, sons e beleza indescritíveis.

Um pequeno espetáculo do boi também pode ser visto em alguns bares da orla da Ponta Negra. Localizada a 13 quilômetros do centro de Manaus, ela é – por si só – um dos importantes postais da cidade. Pelo seu calçadão, às margens do Rio Negro, espalham-se quadras esportivas, ciclovia, playground e vários bares, restaurantes e lanchonetes.

Em qualquer um dos pontos desse animado  calçadão também é possível testemunhar um memorável por do sol. Ali fica ainda um grande anfiteatro, com camarim e toda a infraestrutura para shows. O espaço é um constante palco de espetáculos, incluindo da queima de fogos e comemoração da chegada do Ano Novo.

Vista aérea do Tropical Hotel Manaus -Foto Divulgação

Vista aérea do Tropical Manaus Ecoresort – Foto: Divulgação  

Também é na Ponta Negra que fica o Tropical Manaus Ecoresort, empreendimento banhado pelo Rio Negro. Além de shows semanais do boi, funciona como um clube, especialmente nos fins de semana. Seus restaurantes, quadras esportivas, lojas, zoológico e demais opções de lazer e de serviços também são abertas ao público.

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O zoológico do resort abriga aves, onças, macacos e animais de variadas espécies.

Do píer  do hotel partem barcos e um hidroavião em busca de um dos cenários naturais mais privilegiados de Manaus: o encontro das águas escuras do Rio Negro com as águas barrentas do Rio Solimões. Os dois imponentes rios correm paralelos, sem se misturar, por alguns quilômetros.

Encontro das águas dos rios Negro e Solimões -Manaus - Foto Blog Brasil Imperdivel.jpg

Encontro das águas dos rios Negro e Solimões, Manaus. Foto: Blog Brasil Imperdievel

O fenômeno acontece devido à diferença de densidade, temperatura e velocidade das águas dos dois rios: o Negro corre cerca de 2 km/h, a uma temperatura de 22°C. Já o Solimões corre de 4 a 6 km/h, a uma temperatura de 28°C. Explicações à parte, o espetáculo é pura emoção. Afinal, é da união dos dois rios que nasce o Amazonas. E não é todo dia que a gente pode ver um rio “nascer”, não é mesmo?

 

Inverno e inferno

Em termos de clima, saiba que Manaus é um forno. Para dar uma ideia, os próprios manauaras são os primeiros a brincar, dizendo que lá só existem duas estações: o Inverno (período chuvoso, que vai de dezembro a maio, quando a temperatura é mais amena) e o inferno (verão, de junho a novembro, época de sol intenso e temperatura elevada, em torno de 38ºC, podendo atingir 40ºC à sombra, em setembro).

Brincadeiras à parte, a realidade  é que Manaus, devido à sua proximidade com a linha do Equador, tem clima quente e úmido, com temperatura média anual de 27ºC. Embora durante todo o ano caiam fortes pancadas de chuva de pouca duração, elas não aliviam em nada o calor. Ao contrário, só tornam ainda mais abafada a cidade, onde dificilmente venta.

SERVIÇO
Onde ficar: Tropical Manaus Ecoresort, Avenida Coronel Teixeira, 1.320, tel. (92) 2123-5155, www.tropicalhotel.com.br
Para saber mais: www.manausonline.com

 

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~ por Fabíola Musarra em Fevereiro 26, 2010.

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