Festas Populares Brasileiras – Nossa Senhora da Boa Morte

A festa da Boa Morte

 Por Fabíola Musarra

Quando o calendário aponta o mês de agosto, Cachoeira, na região do Recôncavo baiano, se ilumina. A cidade abriga a concorrida Festa da Nossa Senhora Boa Morte. Realizada invariavelmente no fim de semana mais próximo do dia 15 de agosto, a iniciativa remete aos tempos da escravidão, quando os negros que aqui viviam eram duramente torturados. Foi nesse período que nasceu a Irmandade da Boa Morte, uma organização de mulheres negras que resistiu e se rebelou contra os sofrimentos impostos pelo regime escravagista.

Quando foi criada, em 1820, essa sociedade de mulheres negras e mestiças, escravas e libertas tinha como objetivos comprar a carta de alforria para a libertação de outros escravos, e preservar os rituais das religiões africanas até então proibidos pela Igreja Católica, como o culto dos orixás. Hoje, a Irmandade ainda é uma confraria católica de mulheres negras e mestiças que representam a ancestralidade dos povos africanos escravizados e libertos no Recôncavo Baiano.

Mas confraria tem suas regras e somente podem participar dela as descendentes de escravas com mais de 40 anos – atualmente cerca de 30 senhoras. São elas que continuam fazendo os mesmos rituais secretos aos deuses africanos dos tempos da escravidão, quando pediam a intercessão deles, mas também a de Nossa Senhora da Boa Morte.

Como outras devoções marianas, o culto a Nossa Senhora da Boa Morte desembarcou no Brasil pelas mãos dos jesuítas portugueses. Chegou primeiro em igrejas e conventos de Salvador, que realizavam a procissão do enterro de Maria ou procissão de Nossa Senhora de Boa Morte. Mais tarde, essa devoção foi levada para Cachoeira. Nos primeiros anos, entre a organização da Irmandade (1820) até a decretação da Lei Áurea (1888), as irmãs apenas faziam um ritual secreto, rezavam novenas e dançavam um samba-de-roda, seguido por uma missa católica.

Na época, elas vendiam quitutes nas ruas para comprar a carta de alforria de outros escravos. Pediam, então, a ajuda de Nossa Senhora para libertar os escravos e conseguir voltar à África depois da morte. Hoje, suas integrantes continuam a cumprir a promessa feita pelas suas ancestrais, de sempre agradecer a Nossa Senhora pela ajuda obtida.

Em linhas gerais, a programação da festa de Nossa Senhora de Boa Morte inclui a confissão na Igreja Matriz, um cortejo representando a morte de Nossa Senhora, uma vigília, ceia e uma procissão do enterro da santa. Depois, é celebrada a ascensão de Nossa Senhora, seguida de procissão e de uma missa na Igreja Matriz da cidade.

Embora a mãe de Jesus seja cultuada o ano inteiro, o ápice da festa feita pela Irmandade é a celebração da ascensão da santa. No calendário de duração da festa de Nossa Senhora da Boa Morte, sexta-feira e sábado são os dias dedicados aos cultos sagrados e secretos. Em cerimônia privativa, as irmãs rezam para Nossa Senhora enquanto queimam-se incensos na pequena casa ao lado da Capela da Ajuda, local onde uma imagem de 300 anos de Maria morta é arrumada e velada.

Depois, é feita a saída em procissão do corpo de Nossa Senhora. Durante o cortejo, a imagem tricentenária da santa é levada pelas irmãs que integram a comissão da festa no ano. Todas se vestem de branco, têm contas e brincos brancos ou prateados, usam torço muçulmano branco e carregam tochas com velas acesas. O traje branco é sinal de luto para o povo de santo.

A missa de corpo presente é feita em memória das irmãs falecidas. As irmãs retornam com o caixão à sede da sociedade. Velam Nossa Senhora e fazem rituais secretos. Em seguida, oferecem uma ceia branca (peixes, pães, arroz e vinho) à comunidade. Dizem que essa refeição é preparada para as irmãs falecidas, para os chamados eguns, no candomblé.  

Já no sábado, na missa e na procissão simbolizando a morte de Nossa Senhora, as irmãs usam seus trajes de gala: a cabeça é coberta por um lenço branco. Sobre a camisa branca trazem um pano de veludo preto. Na cintura amarram um lenço branco sobre a saia preta plissada e calçam uma espécie de chinelo branco.

Domingo é o dia que se comemora a ascensão de Nossa Senhora ao céu. É quando as irmãs da confraria oferecem uma feijoada à população. Aí sim, é que a festa popular começa. A alegria invade a pequenina Cachoeira e tudo se transforma em pura magia.

~ por Fabíola Musarra em Fevereiro 26, 2010.

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