Serra da Capivara – Piauí

Em busca do passado perdido

No sudeste do Piauí, São Raimundo Nonato é uma das portas de entrada para o Parque Nacional da Serra da Capivara, um museu arqueológico a céu aberto onde as pinturas rupestres mostram como viveram os primeiros homens que habitaram a América. Nessas terras, a arqueóloga Niéde Guidon encontrou vestígios do que teria sido uma fogueira feita na Pré-história, há 48.500 anos. Se essa data for comprovada, toda a história da humanidade terá de ser reescrita

Por Fabíola Musarra          Fotos: André Pessoa

O Parque Nacional Serra das Confusões (foto) é outra das únicas unidades de conservação do Brasil destinadas à preservação da caatinga. Grande parte de seus sítios arqueológicos, cavernas e grutas ainda é desconhecida pelos cientistas, assim como várias das espécies que ali vivem.

Se São Raimundo Nonato tivesse de ser rebatizada, teria de se chamar Niéde Guidon. Aos 77 anos, a paulista nascida em Jaú é a responsável praticamente por tudo o que acontece na cidade, situada a 530 quilômetros de Teresina, a capital do Piauí. São Raimundo Nonato é uma das portas de entrada para o Parque Nacional da Serra da Capivara, outras das “invenções” dessa enérgica guerreira de 1,56 metro de altura – foi uma das principais responsáveis por sua criação. Por reunir o maior conjunto de arte rupestre do planeta, o parque hoje é Monumento Cultural da Humanidade da Unesco.

Há quase quatro décadas, a arqueóloga formada na Faculdade Sorbbone, em Paris (França), desembarcou na cidade e começou a procurar na região vestígios da existência do homem pré-histórico na América. No Boqueirão da Pedra Furada, um dos mais bonitos dos paredões do parque, ela encontrou “restos” do que teria sido uma fogueira feita pelo brasileiro na Idade da Pedra, há 48.500 anos.

Quando divulgou sua descoberta em 1988, a pesquisadora deu o que falar, sobretudo no meio científico. Afinal, se a sua hipótese fosse confirmada, a história teria de ser reescrita, pois comprovaria que o homem já habitava o continente americano antes do fim do Pleistoceno (era geológica anterior a 10 mil anos, a qual se segue o atual período, o Holoceno, iniciado há 11 mil anos no fim da última era glacial). Vale lembrar que hoje as datações da presença do homem na América do Sul aceitas pelos arqueólogos são de no máximo 12 mil anos.

Embora para calcular a datação dos vestígios da fogueira tenha sido empregado o Carbono 14, um método considerado seguro, alguns pesquisadores – principalmente os norte-americanos – não aceitaram a teoria de Niéde. Para eles, as evidências arqueológicas consideradas por ela e sua equipe como sendo artefatos (fruto do trabalho humano) seriam, na realidade, geofatos (produto da ação de forças naturais). Traduzindo: as evidências encontradas seriam carvão produzido pelas queimadas e não de fogueiras feitas pelo homem.

Toda essa polêmica batalha ainda não terminou. Mas não faz muito tempo que Niéde venceu dois rounds dela. O primeiro foi quando um dos mais ferrenhos críticos de seu trabalho, o professor norte-americano Thomas Dillehay, da Universidade de Kentucky (EUA), escreveu um artigo para a revista The Sciences admitindo que a datação de mais de 40 mil anos pode ser verdadeira, após ter sido informado sobre vestígios ainda não comprovados de 33 mil anos no Chile. Já o segundo round aconteceu em 1993, com a publicação da tese de doutorado do arqueólogo italiano Fábio Parenti, na qual ele constatava a veracidade da datação dos artefatos encontrados pela pesquisadora brasileira.

Tesouro nacional

Enquanto os cientistas não chegam a um acordo quanto às evidências arqueológicas que modificariam a data da chegada do homem ao continente americano, Niéde segue tomando conta de um dos maiores tesouros brasileiros: o Parque Nacional Serra da Capivara e seus mais de 700 sítios arqueológicos com pinturas rupestres de até 12 mil anos. Criado em 1979, hoje é a única unidade de conservação em todo o Brasil destinada à preservação da caatinga, palavra indígena que significa floresta branca. Esse importante bioma abriga uma rica biodiversidade e corre o risco de extinção. Só por isso, o local já merece ser conhecido.

O parque de 214 quilômetros de perímetro, contudo, é muito mais do que sua vegetação, flora e fauna típicas. Caminhar pelas dezenas de trilhas existentes em seu interior é como passear em um museu arqueológico a céu aberto. São milhares de pinturas rupestres que retratam cenas da vida cotidiana dos primeiros homens que habitaram a região na Pré-história.

São cenas de caça, de animais da extinta megafauna, de rituais, de sexo e de dança desenhadas nas imensas rochas do parque pelos homens primitivos. Conhecer esses sítios é como ir ao encontro de nossos ancestrais. É assistir a uma aula de história ao vivo e em cores sobre como eles viviam, onde moravam, o que faziam, como enterravam seus mortos e como era a fauna e a flora da região naquela época.

Parte do material recolhido nos sítios do parque faz parte do acervo do Museu do Homem Americano, da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), instituições idealizadas por Niéde e mantidas com verbas obtidas por ela no Exterior, com o governo francês, do Japão e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), entre outros países e instituições.

Resistência de cáctus

Em São Raimundo Nonato há muitas outras iniciativas assinadas por Niéde e que asseguram o desenvolvimento econômico da região, gerando empregos para boa parte – se não para a maioria – da população. Hoje, os seus 35 mil moradores respeitam o seu nome. Sabem que essa áspera e corajosa mulher não chegou ali para brincar. Nem tampouco teme as ameaças de morte, tão comuns nas terras tupiniquins nordestinas ainda hoje comandadas pelos coronéis do agreste.

Contam que um deles mandou buscar em pleno sertão da caatinga um assassino profissional para “dar sumiço” na pesquisadora. Ao saber da contratação, Niéde não hesitou e foi a casa dele para lhe dizer pessoalmente que também havia contratado um “cabra danado de bom no manejo do gatilho” e que se algo lhe acontecesse, a família do coronel também “desapareceria”. Resultado: ela continua viva e tão ou mais resistente que os cactos que brotam no solo árido da caatinga.

Lenda? Nem tanto. Quando ali ela chegou em 1973 eram comuns as brigas que tinha com as pessoas que iam caçar animais silvestres na Serra da Capivara ou que retiravam cal de seus sítios pré-históricos. A luta foi intensa, mas graças à sua garra, é que o Parque da Serra da Capivara hoje está preservado e é protegido – a reserva é administrada por um convênio entre o poder público e a Fumdham, da qual Niéde é a presidente.

Para entrar nele, o visitante tem de passar por uma das quatro guaritas que dão acesso ao santuário arqueológico – duas em São Raimundo Nonato e outras duas no vizinho município de Coronel José Dias. Os turistas somente podem conhecer o local se estiverem acompanhados por um guia. O número de visitantes também é limitado. Para os grandes eventos, como o Festival de Cultura Acordais que ocorreu no Boqueirão da Pedra Furada, em novembro, o ingresso é limitado a mil pessoas.

Em todas as guaritas trabalham apenas mulheres, outra das travessuras de Niéde. Cansada de ver os banheiros sujos e de ouvir a mão-de-obra masculina alegar que limpeza era tarefa de mulher, ela não teve dúvida: demitiu todos os homens. Afinal, se manter o lugar limpo era coisa de mulher, nada mais justo que elas fossem contratadas. Não foi a primeira vez – e certamente não será a última – que a arqueóloga bate de frente com os costumes do agreste.

Quer ver ela virar fera? Atreva-se colocar em risco o Parque Nacional Serra da Capivara e seus sítios arqueológicos, onde vivem diferentes espécies (muitas delas endêmicas) de lagartos, serpentes, rãs, sapos e mamíferos, além de uma infinidade de plantas. Se tiver alguma dúvida quanto ao desfecho dessa história, converse com algum ex-caçador regenerado e ele te contará do que ela é capaz.

Mas até mesmo quando a pesquisadora manda prender os caçadores mais destemidos ou ameaça de morte quem invade aquelas terras para danificar o patrimônio que ela tanto protege, São Raimundo Nonato sai ganhando. Afinal, depois de tantos anos (leia-se desavenças e desafetos), hoje a maioria da população está conscientizada sobre a importância da preservação do parque, do precioso tesouro histórico e ecológico que tem em mãos.

Sua fauna, aliás, é tema de inspiração para as peças de cerâmica produzidas na cidade. Dentro da reserva, no pequeno distrito de Barreirinho, funciona a Cerâmica Serra da Capivara (www.ceramicacapivara.com). Resultado de um projeto social desenvolvido pela Fumdham em 1992, a associação aperfeiçoou as técnicas dos artesãos locais e criou a cerâmica com motivos inspirados nos desenhos pré-históricos existentes nas rochas do parque.

As pinturas surgem nos vasos, nas xícaras, canecas, moringas e dezenas de outros produtos utilitários produzidos artesanalmente nas cores azul, verde, branco e creme. A oficina emprega os moradores do entorno do parque e as peças são exportadas para diversas capitais brasileiras e para países do Exterior “A Itália é um dos maiores consumidores de nossas peças”, orgulha-se Girleide Maria Alves de Oliveira, administradora da entidade.

Mas adivinhe só quem idealizou essa iniciativa? Niéde – sempre ela –, é claro! Tarefa cumprida, a espevitada arqueóloga já tem uma nova briga pela frente: agora quer exportar os exóticos cactos que brotam abundantemente na caatinga, gerando mais empregos e desenvolvimento econômico para a cidade. Mas já há quem seja contra.

Nenhuma novidade para “a mulher de Guidon”, como a chamavam quando ela ali chegou. Apelidos, desavenças e desafetos à parte, Niède já nem se importa mais. Ousada, segue adiante redesenhando a história de São Raimundo Nonato e – se a sua teoria arqueológica for comprovada – a do planeta.

 

SERVIÇO

Como chegar

Via Teresina (PI), ou por Petrolina (PE): Gol Linhas Aéreas Inteligentes. Site: www.voegol.com.br.

De Teresina – Siga na direção sul pela Rodovia BR-316 até a cidade Regeneração. De lá, pegue a PI-236 até Oeiras e siga pela PI-143 em direção a Simplício Mendes. Por último, prossiga pela Rodovia BR-020 até São Raimundo Nonato. O trajeto a ser percorrido é de aproximadamente 550 quilômetros.

De Petrolina – Siga em direção a cidade pernambucana de Afrânio. Entre a esquerda passando pelas cidades piauienses de Queimada Nova, Lagoa do Barro e São João do Piauí.

Até chegar a São Raimundo Nonato são cerca de 400 quilômetros.

 

Onde ficar

Hotel Serra da Capivara – Localizado em um bosque a um quilômetro do centro de São Raimundo Nonato, tem estacionamento, internet e piscina. Seus 44 apartamentos são equipados com tevê 20 polegadas, frigobar e ar-condicionado. O restaurante oferece refeições à la carte. Mas o seu maior charme fica por conta da linda paisagem de seu entorno, além, é claro do ar muito puro. Fica na Rodovia Piauí 140, Km 0, bairro de Santa Luzia, tel. (89) 3582-1389. E-mail: hotelserradacapivara@firme.com.br

Hotel Real – Fica bem no centro de São Raimundo Nonato. Seu restaurante – o Real Sabor – oferece refeições no sistema de self-service. Largo Manoel Agostinho de Castro, 704, centro, tels. (89) 3582-1495/1691. E-mail: rea.hotel@yahoo.com.br, site: www.realhotelsrn.com.br.

Pousada Zabelê – Aconchegante, tem 17 apartamentos. No local também funciona o Restaurante Zabelê. Praça Major Toinho, 280, entro, tels. (89) 3582-2726/1129. E-mail: pousadazabele@uol.com.br.

Pousada Lelinha – Instalada em uma grande casa, possui 19 apartamentos com ar-condicionado, internet e frigobar. Rua Dr. Barroso, 249, Aldeia, tel. (89) 3582-2490. E-mail: lelinhapousada@hotmail.com 

Camping Pedra Furada – Opção econômica ideal para estudantes, mochileiros e para quem gosta de estar em contato mais direto com a natureza. No lugar também são oferecidas refeições caseiras. Mas atenção: o camping fica no povoado Sítio do Mocó s/nº, zona rural, no município Coronel José Dias, a 25 quilômetros de São Raimundo Nonato. Tel. (89) 3582-2845. E-mail: luceliaabs@hotmail.com.

Onde comer

Bode Assado Tanga – Como o próprio nome sugere, a carne de bode é o carro-chefe da casa. Fica na Rua Francisco Antunes de Macedo, 449, Santa Fé, tel. (89) 3582-1347.

Sabor da Terra – O restaurante funciona em sistema de self-service com variadas opções de pratos quentes, grelhados e saladas. Rua Dr. Raul Macêdo, 50 centro, tel. (89) 3582-3395.

Restaurante da Valda – Self-service de pratos e sobremesas, com refeições para todos os gostos e paladares, desde as comidas típicas regionais, como galinha caipira e a carne de sol, até iguarias preparadas pelas divinas mãos da proprietária, a simpática dona Valda. Rua Antônio de Castro Marques, 279, Gavião, tel. (89) 3582-1375.

Quem leva

As diferentes trilhas e roteiros da Serra da Capivara só podem ser desvendados ao lado de um guia credenciado pela Fumdham (as guardas que trabalham nas quatro entradas do parque fiscalizam e registram o nome do guia responsável pela visita dos turistas). Para contratar o serviço de um deles, basta se informar na recepção dos hotéis da cidade sobre o telefone dos profissionais da Associação dos Condutores de Visitantes da Serra da Capivara (Acovesc). Recém-criada, a entidade ainda não tem sede própria, porém seus filiados agendam visitas diariamente das 6 horas às 18 horas. Cada guia apenas pode conduzir um grupo de no máximo dez pessoas. A taxa pelo passeio é de R$ 75. É importante lembrar que não existem locadoras de veículos em São Raimundo Nonato. Se desejar alugar um táxi na cidade, o passeio no parque, sem a taxa do guia e de entrada na reserva (R$ 10), não fica por menos de R$ 130,00.

Imperdível

 Não deixe de ir ao Museu do Homem Americano e ao Centro Cultural Sérgio Motta. No local, você pode conferir o resultado de quase 40 anos de pesquisas realizadas no Parque Nacional da Serra da Capivara. Logo em sua entrada, um gigantesco telão exibe um filme que discorre sobre as origens da espécie humana, a sua dispersão e o povoamento do continente americano. Assim como o filme, todo acervo do museu é autoexplicativo: painéis, utensílios, ferramentas, artefatos, fósseis e outras peças datadas de diferentes períodos históricos descrevem a origem das pinturas rupestres e a evolução dos povos primitivos que ali viveram. Fica no Centro Cultural Sérgio Motta s/nº, Campestre, tel. (89) 3582-1612. Aberto de terça-feira a domingo, das 9h às 17h. Ingressos custam R$ 8 (inteira) e R$ 4 (estudantes e grupos com mais de dez pessoas).

Imperdível também é o Baixão das Andorinhas, um dos roteiros do parque. Diariamente, mais ou menos às 17 horas, o cânion com 90 metros de profundidade recebe bandos de andorinhões que se abrigam em suas fendas. Além desse inesquecível espetáculo, a paisagem que se testemunha lá de cima, a imensidão do cânion sendo tingido pelos raios multicoloridos do pôr do sol é simplesmente indescritível.

Para saber mais

www.fundham.org.br

www.portalsrn.com.br

Centro de Informações Turísticas da Prefeitura de São Raimundo Nonato– Funciona de segunda a sexta-feira, de modo precário e sem horário definido. Largo Capitão Tomaizinho, centro. O único telefone disponível é o da Prefeitura: (89) 3582-1059.

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~ por Fabíola Musarra em Maio 15, 2011.

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